Encontro 1. - Eu Sou¶
Introdução para o animador¶
O encontro de sexta-feira tem como objetivo principal que os membros se conheçam e se forme a comunidade do pequeno grupo de partilha. Portanto, vale a pena dedicar uma quantidade adequada de tempo à integração e a delinear o caráter desses encontros, para que constituam um espaço seguro. Um objetivo importante é também a preparação para a oração da noite, por isso a questão mais importante a ser abordada em termos de conteúdo são as nossas imagens sobre Deus e a partilha de um fragmento do Livro do Êxodo.
Vamos nos conhecer!¶
Começamos com uma oração, depois passamos a conhecer os membros do grupo.
Proposta para a forma de se conhecer: os participantes formam pares, conversam por um momento (aprox. 3 min.) contando sobre si mesmos. Em seguida, no fórum do grupo, nos apresentamos mutuamente - descrevemos a pessoa com quem estávamos em par, dizendo tudo o que conseguimos lembrar. É, em certo sentido, um teste de atenção e um ponto de partida para reflexões sobre o tema do encontro.
O que foi difícil para mim neste exercício?
Qual foi a minha maneira de lembrar as informações sobre a outra pessoa?
O que foi mais importante para mim: lembrar a maior quantidade de detalhes possível ou prestar atenção ao que, na minha opinião, é mais importante? Por quê?
O mesmo acontecerá com o que conseguimos tirar da conferência introdutória, cada um de nós provavelmente lembrou algo diferente dela. Alguns certamente prestaram atenção em como a pessoa que falava estava vestida, qual era a sua maneira de falar, outros se concentraram principalmente no conteúdo. Independentemente do que “levamos” deste tempo para nós mesmos, tivemos que demonstrar certo grau de atenção para que isso pudesse acontecer.
Atenção na prática¶
Cada um de nós é diferente e presta atenção a coisas diferentes, lembra coisas diferentes. Coisas diferentes o tocam, ele é sensível a coisas diferentes. Isso não significa que um de nós foi certamente menos e outro mais atento.
O que é para nós a atenção? Como ela se manifesta na relação com Deus, com os outros e consigo mesmo? Como podemos estar atentos uns aos outros durante esses encontros?
Leiamos:
Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde estava Lázaro, o que falecera, e a quem ressuscitara dentre os mortos. Fizeram-lhe, pois, ali uma ceia, e Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Então Maria, tomando um arrátel de ungüento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do ungüento. Então, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de Simão, o que havia de traí-lo, disse: Por que não se vendeu este ungüento por trezentos dinheiros e não se deu aos pobres? Ora, ele disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava. Disse, pois, Jesus: Deixai-a; para o dia da minha sepultura guardou isto; Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes.
—Jo 12,1-8
O motivo da atenção está presente no fragmento que fala da unção em Betânia. Maria percebe o que está acontecendo com Jesus e o unge para o seu enterro: para o dia da minha sepultura guardou isto. Judas se indigna, vendo nisso um desperdício e uma oportunidade potencial de lucro: Por que não se vendeu este ungüento por trezentos dinheiros e não se deu aos pobres?. Maria demonstra atenção para com Jesus e o que está acontecendo com Ele. No entanto, seu bom gesto encontra a crítica daqueles que estão com Jesus diariamente. Às vezes somos menos atentos com aqueles com quem somos mais próximos: esposa, marido, pais, irmãos. Acontece que assumimos de antemão o que nos dirão, como reagirão a um determinado evento, etc. Jesus defende Maria das críticas de Judas.
O que pode fazer com que sejamos menos atentos às necessidades dos outros e ao que eles comunicam? Como posso eliminar esses obstáculos?
Como posso desenvolver na vida cotidiana a atenção para com as pessoas com quem estou frequentemente - em casa, no trabalho, na universidade, etc.?
Nossas imagens sobre Deus¶
Judas provavelmente perdeu o que estava acontecendo com Jesus não apenas porque não havia nele atenção ao Seu estado atual, mas também porque não percebia quem realmente é o Seu Mestre. Esperava um Messias poderoso que libertasse Israel, e não um servo humilde que daria a sua vida pelos seus amigos. Nós mesmos também podemos ter diferentes imagens sobre como é Deus.
Como se pode perceber a Deus?
Que imagem de Deus é a mais próxima de mim atualmente? Como ela mudou com o tempo?
O que influencia a minha maneira de perceber a Deus?
Os discípulos após a ressurreição não reconheceram Jesus imediatamente. No Evangelho temos descritos vários encontros em que só depois de algum tempo se deram conta de que era Ele. Maria Madalena no túmulo, os discípulos indo para Emaús, os apóstolos pescando no lago de Tiberíades. Na maioria das vezes percebiam que era Jesus após algum gesto ou sinal concreto - pela maneira como pronuncia o nome, por como parte o pão, pelas marcas da paixão. Quanto mais atentos estamos, mais rápido somos capazes de reconhecê-lo. Ao mesmo tempo, devemos ter em nós a disposição para aceitar a Deus tal como Ele quer se revelar a nós atualmente.
Leiamos:
E Acabe fez saber a Jezabel tudo quanto Elias havia feito, e como totalmente matara todos os profetas à espada. Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias, a dizer-lhe: Assim me façam os deuses, e outro tanto, se de certo amanhã a estas horas não puser a tua vida como a de um deles. O que vendo ele, se levantou e, para escapar com vida, se foi: e chegando a Berseba, que é de Judá, deixou ali o seu moço. E ele se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte, e disse: Já basta, ó SENHOR; toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais. E deitou-se, e dormiu debaixo do zimbro; e eis que então um anjo o tocou, e lhe disse: Levanta-te, come. E olhou, e eis que à sua cabeceira estava um pão cozido sobre as brasas, e uma botija de água; e comeu e bebeu, e tornou a deitar-se. E o anjo do SENHOR tornou segunda vez, e o tocou, e disse: Levanta-te e come, porque te será muito longo o caminho. Levantou-se, pois, e comeu e bebeu; e com a força daquela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus. E ali entrou numa caverna e passou ali a noite; e eis que a palavra do SENHOR veio a ele, e lhe disse: Que fazes aqui Elias? E ele disse: Tenho sido muito zeloso pelo SENHOR Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada, e só eu fiquei, e buscam a minha vida para ma tirarem. E Deus lhe disse: Sai para fora, e põe-te neste monte perante o SENHOR. E eis que passava o SENHOR, como também um grande e forte vento que fendia os montes e quebrava as penhas diante do SENHOR; porém o SENHOR não estava no vento; e depois do vento um terremoto; também o SENHOR não estava no terremoto; E depois do terremoto um fogo; porém também o SENHOR não estava no fogo; e depois do fogo uma voz mansa e delicada. E sucedeu que, ouvindo-a Elias, envolveu o seu rosto na sua capa, e saiu para fora, e pôs-se à entrada da caverna; e eis que veio a ele uma voz, que dizia: Que fazes aqui, Elias?
—1 Rs 19,1-13
Este fragmento descreve um dos momentos mais difíceis da vida de Elias, que duvidou do sentido da sua vocação, e até mesmo em geral do sentido da vida. Deus, no entanto, não desiste do seu profeta, cuida dele e o chama ao monte Horebe para se encontrar com ele lá.
Que significado tem o fato de Deus perguntar a Elias “Que fazes aqui?”?
O que Deus queria dizer sobre si mesmo ao se revelar ao profeta dessa maneira?
O que é a minha “voz mansa e delicada” na qual reconheço a Deus?
Deus mostrou anteriormente a sua presença de diferentes maneiras, também no terremoto ou no fogo (a coluna de fogo no Livro do Êxodo). Mas neste momento concreto da vida de Elias, revelou-se a ele num sopro suave. A experiência de Deus, embora Ele mesmo seja imutável, nunca é dada de uma vez por todas numa forma idêntica.
Aquele que ɶ
Antes de Deus se revelar a Elias no sopro suave, nesse mesmo monte apareceu ao seu outro servo: Moisés, revelando pela primeira vez diretamente ao homem o seu próprio nome.
Leiamos:
E apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote em Midiã; e levou o rebanho atrás do deserto, e chegou ao monte de Deus, a Horebe. E apareceu-lhe o anjo do SENHOR em uma chama de fogo do meio duma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia. E Moisés disse: Agora me virarei para lá, e verei esta grande visão, porque a sarça não se queima. E vendo o SENHOR que se virava para ver, bradou Deus a ele do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés. E ele disse: Eis-me aqui. E disse: Não te chegues para cá; tira os sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa. Disse mais: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. E Moisés encobriu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus. E disse o SENHOR: Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. Portanto desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel; ao lugar do cananeu, e do heteu, e do amorreu, e do perizeu, e do heveu, e do jebuseu. E agora, eis que o clamor dos filhos de Israel é vindo a mim, e também tenho visto a opressão com que os egípcios os oprimem. Vem agora, pois, e eu te enviarei a Faraó para que tires o meu povo (os filhos de Israel) do Egito. Então Moisés disse a Deus: Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel? E ele disse: Certamente eu serei contigo; e isto te será por sinal de que eu te enviei: Quando houveres tirado este povo do Egito, servireis a Deus neste monte. Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração. Vai, e ajunta os anciãos de Israel, e dize-lhes: O SENHOR Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, me apareceu, dizendo: Certamente vos tenho visitado, e visto o que vos é feito no Egito.
—Ex 3,1-16
Na Sagrada Escritura podemos encontrar muitos nomes diferentes de Deus, dois básicos: Elohim (significando divindade, El - Deus) e Javé (Senhor) indicando mais a pessoa. Elohim aparece no primeiro capítulo do Gênesis, no qual Deus é mostrado principalmente como o poderoso Criador de todo o mundo. No segundo capítulo, no qual a criação do homem é descrita com mais detalhes, ao lado de Elohim aparece também a palavra Javé, que mostra que Deus não é apenas um poderoso Criador, mas também alguém que estabelece uma relação pessoal e íntima com a sua criação. No fragmento do Livro do Êxodo que acabamos de ler, Deus apresenta-se precisamente como Javé, reflitamos juntos sobre o significado deste nome.
Nota
Estes dois termos aparecem no AT porque se distinguem várias fontes escritas dos textos do AT: eloísta (E), javista (J), deuteronomista (D) e sacerdotal (P). Surgiram em diferentes períodos, contextos e às vezes em oposição entre si. Assume-se que Elohim e Javé são as mais antigas, e assim, pode-se distinguir em Elohim um Deus mais transcendente, inacessível, às vezes até não misericordioso, em Javé mais pessoal, em relação, além disso, relação com a nação (grupo étnico - Abraão) não com o… estado (isso se vê mais na fonte Deuteronomista - por exemplo, nos textos sobre os reis).
O que Deus diz sobre si mesmo ao apresentar-se como Aquele que é?
Por que escolheu precisamente este momento da história da salvação para revelar ao homem o Seu nome?
Qual é a minha experiência de Deus Elohim e qual a de Deus Javé?
Deus queria transmitir-nos que a essência da Sua existência é simplesmente ser: presença cheia de atenção e consciência em relação à outra pessoa (no âmbito da Santíssima Trindade ou em referência ao homem). Visto que somos criados à Sua imagem e semelhança, pode-se dizer que a nossa vocação básica, peculiar e original também é ser.
O homem que é. Eu, que sou - o que isso significa para mim?
De que maneira podemos realizar a nossa vocação para ser?
Conclusão e aplicação¶
Em breve passaremos à oração da noite. Estaremos na presença de Deus, que É, e nós mesmos quereremos sobretudo estar lá para Ele. Esforcemo-nos por viver esta oração da maneira mais consciente e atenta possível, que não seja um tempo que simplesmente “passe de alguma maneira”, mas um momento de autêntica permanência junto a Ele. Lembremos desta oração nem que seja um detalhe, um pensamento ou sentimento, que anotaremos no caderno e que partilharemos no próximo encontro de grupo.