Encontro 3. - Ser servo de Deus e das pessoas¶
Objetivo do encontro + introdução para o animador¶
O objetivo do encontro de hoje é que cada um dos participantes elabore um aspecto concreto e verificável da vida no qual queira “mais ser do que ter”. Queremos enfrentar os nossos receios e motivar bem a nossa mudança potencial. Este encontro dura 1 hora e 20 minutos. O encontro de grupo de hoje não tem oração antes do encontro. Tem oração no segundo ponto deste encontro.
Introdução¶
Ontem na oração da noite cada um de vós foi enviado a fazer misericórdia. Simbolicamente recebestes uma vela acesa. A Igreja intercedia junto de Deus por vós, para que realizásseis a vossa vocação.
O que significa para ti este evento, o que sentiste quando recebias a vela?
Que esperanças tens ligadas a este tempo?
Como te sentes neste retiro?
Oração¶
A Igreja que nos apoiou na vocação não são apenas os “especialmente autorizados”. A Igreja somos nós. Vivemos este retiro juntos e como dissemos no primeiro encontro - somos responsáveis uns pelos outros. Rezemos, pois, agora nas nossas intenções para que, ao descer hoje desta montanha, transfiramos uma coisa para a nossa vida de forma duradoura.
Sou chamado¶
Fomos enviados. Fomos chamados. É uma das verdades fundamentais da fé - Deus ama-nos e tem um plano para nós. Notai que até agora não vos perguntamos que vocação tendes. Não tínhamos de o fazer, porque Deus chama-nos a algumas coisas a todos nós. Assim é, por exemplo, com o fazer misericórdia ou a busca da santidade. No entanto, continua a ser uma vocação - que é preciso ouvir, e depois responder voluntariamente. Embora seja universal/massiva, respeita a liberdade de cada um de nós.
Sentes-te chamado ao serviço a outra pessoa? De que maneira?
Nota
Pode-se não saber ainda!
Na viragem de 1997 e 1998 realizou-se em Roma um congresso dedicado às vocações. Tentaremos agora recorrer a este texto oficial da Igreja e medir-nos com ele.
Leiamos:
“Este simples facto de existir deveria antes de tudo encher a todos de assombro e de imensa gratidão para com Aquele que de maneira totalmente gratuita nos chamou do nada, pronunciando o nosso nome. Compreender, portanto, que a vida é um dom, não deveria apenas despertar uma atitude de reconhecimento, mas lentamente deveria sugerir a primeira grande resposta à pergunta fundamental sobre o seu sentido: a vida do homem é uma obra-prima do amor criador de Deus e é em si mesma um apelo ao amor. O dom recebido tende pela sua natureza a tornar-se um bem dado. O amor é o sentido pleno da vida. Deus amou tanto o homem que deu a sua vida por ele e tornou-o capaz de viver e amar à maneira divina.”
—Congresso de Novas Vocações na Europa
Ao serviço de quem/que gostarias de dedicar atualmente a tua vida? Porquê?
O que pensas sobre o facto de seres capaz de amar à maneira divina? O que significa isto para ti?
Leiamos:
“Assim como a santidade é para todos os batizados em Cristo, assim também existe uma vocação específica de cada vivente; assim como a primeira está enxertada no santo Batismo, assim a segunda está ligada ao facto mesmo de existir. A vocação é o pensamento providencial do Criador a respeito de cada criatura, é a sua ideia-projeto, como um certo sonho que está no coração de Deus, porque o destino da criatura lhe importa. Deus-Pai deseja que seja diferente e específica para cada vivente. O ser humano é na realidade «chamado» à vida e, quando começa a viver, traz e reencontra em si a imagem Daquele que o chamou.”
—Congresso de Novas Vocações na Europa
Nota
Não percamos este momento - aqui chegamos ao concreto. Disto pode depender todo o valor deste retiro. É um momento de verificação peculiar e a “última chamada” para que tentemos ajudar mais uma vez os participantes a viver o retiro.
Não temos de ser todos iguais apesar de todos termos a mesma vocação ao serviço da misericórdia. Isto deve significar que o serviço da misericórdia deve ter muitas manifestações.
Mostremos a misericórdia amplamente! Não reservemos a palavra “misericórdia” apenas para ajudar as crianças pobres na rua comprando-lhes um pãozinho (embora isso também seja importante!). Ensinar algo é um serviço de misericórdia. Dedicamos-lhe o nosso tempo e recursos fazendo-o com amor para o seu bem. Uma conversa honesta com alguém a tomar um café quando essa pessoa tem a necessidade de desabafar com alguém é um serviço de misericórdia.
Dividamos juntos a nossa vida em certos espaços. Por exemplo:
Estudos
Família
Ambiente de casa
Trabalho
Descanso
Hobby
Desporto
Amigos
Viagens
Política
Que cada um dos grupos escolha os seus 10 espaços anotando-o numa folha de modo a que surjam 10 colunas. Depois, em notas adesivas tipo “post-it”, anotemos juntos ideias como se pode ser apóstolo da misericórdia em cada um destes espaços colando-a no lugar adequado.
Que “nota” é a mais próxima de ti? Porquê?
Onde no ambiente em que vives é mais necessário o serviço da misericórdia? Em que consistiria?
Como podes tu “consumir-te pelos outros” neste âmbito?
Nota
Este é um lugar onde, como animadores, podemos dar testemunho desse “encontrar em si a imagem Daquele que nos chamou” na diaconia. É pessoal, mas penso indispensável.
Recebi portanto dou¶
Leiamos:
De graça recebestes, de graça dai.
—Mt 10, 8
Quais são os teus “dons específicos” que podes utilizar? Em que espaços do exercício anterior te parece mais natural?
O que é para ti o mais importante no dar?
Como aceitas os presentes dos outros? Isso causa-te algum problema?
Ver-se a si mesmo como alguém dotado, alguém feliz ajuda muito a ver o irmão e a irmã ao nosso lado. Esse sentimento de baixo valor faz “paradoxalmente” com que estejamos concentrados muitas vezes tanto em nós mesmos que não somos capazes de ver plenamente as necessidades das pessoas perto de nós.
Deus vê em nós pessoas valiosas e dotadas. Se olharmos para nós mesmos desta maneira, dar aos outros o que se recebeu torna-se algo natural.
Qual é a coisa/assunto mais importante que podes dar ao outro?
A quem dedicas mais do teu tempo? Às pessoas ou aos assuntos?
De que és mais grato na vida?
Ver o irmão e a irmã¶
Leiamos o último fragmento:
“Parte da cultura vocacional é: a capacidade de sonhar e de ter grandes desejos; o assombro que permite apreciar a beleza e escolhê-la pelo seu próprio valor intrínseco, porque torna a vida bela e verdadeira; o altruísmo que não é apenas solidariedade na necessidade, mas nasce da descoberta da dignidade de qualquer uma das irmãs e irmãos. À cultura do prazer, que corre o risco de perder de vista e aniquilar as perguntas sérias, opõe-se uma cultura capaz de encontrar a coragem e o gosto nas grandes perguntas do homem, referentes ao seu futuro.”
—Congresso de Novas Vocações na Europa
Que receios tens ligados ao “ser para”?
Em que consiste a “dignidade de qualquer uma das irmãs e irmãos”? (Todos pertencem a Deus)
Leiamos:
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.” Então os justos lhe responderão, dizendo: “Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?” E, respondendo o Rei, lhes dirá: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”
—Mt 25, 34-37
Em que medida és capaz de viver na perspectiva de que em cada homem podemos encontrar Cristo?
O que muda para o mundo tal perspectiva que Cristo trouxe?
O que significa o facto de que os justos estavam surpreendidos por tal viragem dos acontecimentos?
Ser bom não é um esforço enorme. Os “bem-aventurados” têm isto inscrito no seu ADN, são assim “de passagem”. Como de outra forma poderiam ser felizes se cada sorriso, aperto de mão ou outra ajuda fosse um esforço com suor na testa? Recebemos uma vela que se consome. Esse consumir-se no cristianismo é alegre, é natural. De outra forma ninguém seria cristão mais do que alguns anos por razões de esgotamento mental :).
Nota
Que cada animador encontre aqui o seu próprio exemplo. Eu dou o da KWC (Cruzada de Libertação do Homem), porque é comumente conhecido.
A chave é precisamente a mudança de perspectiva de sexta-feira. Alguém do trabalho disse-me uma vez: “Admiro-te por esse esforço de não beber álcool há 17 anos. Deves ter umas técnicas de motivação incríveis e complicadas”. O facto é que não as tenho. O cristianismo não é complicado, não tem mecanismos avançados. O que da perspectiva secular parece uma maquinaria complicada pode ser visto excepcionalmente simples. Mudemos por um momento a perspectiva e vejamos em cada alcoólico Jesus (ou simplesmente um homem com a mesma dignidade que a minha mãe) e pensemos que se pode ajudá-lo não bebendo. Portanto não bebo.
De que maneira a tua fé muda a perspectiva ao olhar para as outras pessoas?
De que maneira a tua fé muda a perspectiva ao olhar para a vida?
Servir na comunidade, até ao fim e… desde agora¶
Na Mensagem para a Quaresma deste ano Francisco recordou: „Como desejo que os lugares onde se manifesta a Igreja, em particular as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!”
O Papa fala de comunidades, grupos. Porquê?
Falamos disto ontem interpretando o símbolo da vela. É fácil perder o ardor. Se houver outros à nossa volta que “estão acesos”, manteremos a chama.
Tens um grupo que possa ajudar-te a servir? Como é ele?
De que maneira podes manter nele o teu ardor?
Como dizia um clássico “são precisos dois para dançar o tango”. O simples facto de que nós queiramos estar numa comunidade não basta para que automaticamente o nosso ardor não enfraqueça. É precisa também a abertura dessa comunidade para nos ajudar. Podemos, portanto, colocar-nos do outro lado, certo? Já sabemos mudar de perspectiva! :).
O que fazes para manter o ardor dos outros na tua comunidade para o serviço?
O que poderias fazer adicionalmente?
O serviço da misericórdia é algo que se escolhe permanentemente. Se se vê esta perspectiva evangélica de que falamos todo o tempo aqui, isso deixa já um rastro duradouro. Por isso em tal caso “volta-se da montanha das bem-aventuranças sendo já um homem diferente”.
Leiamos mais um fragmento da homilia, cujos fragmentos lemos ontem no encontro:
“Sabemos que aqui, neste lugar, em Westerplatte, em setembro de 1939, um grupo de jovens polacos, soldados, sob o comando do major Henryk Sucharski, resistiu com nobre obstinação, empreendendo uma luta desigual com o invasor. Uma luta heroica.Permaneceram na memória da nação como um símbolo eloquente. É preciso que este símbolo continue a falar, que constitua um desafio para cada vez mais novas pessoas e gerações de polacos.Cada um de vós, jovens amigos, encontra também na vida algum «Westerplatte» seu. Alguma dimensão de tarefas que deve empreender e cumprir. Alguma causa justa pela qual não se pode não lutar. Algum dever, obrigação, da qual não se pode evadir. Não se pode «desertar».Finalmente - alguma ordem de verdades e valores que é preciso «manter» e «defender», como esse Westerplatte, em si e à volta de si. Sim, defender - para si e para os outros.”—Homilia durante a liturgia da palavra dirigida à juventude reunida em Westerplatte – 12 de junho de 1987
Apesar de estarmos juntos há menos de dois dias, tentaremos num espírito de confiança cristã abrir-nos uns aos outros. Medimo-nos com tais perguntas?
Nota
Animador, conheces o teu grupo e discerne se queres realizar isto no encontro.
O que é o teu Westerplatte? Como se parece da perspectiva de “mais ser do que ter”?
O que podemos fazer como pequeno grupo para te ajudar a defendê-lo?
Nota
Este é o lugar do animador para o testemunho sobre o encontrar do “seu lugar na terra” na diaconia (desde que seja verdade!)
Encorajemos o grupo a agir. Passemos de falar da misericórdia a fazê-la. Aqui e agora.
Variante 1 (impacientes):
O que podemos fazer agora como pequeno grupo para te ajudar?
Alguém quer oração? Rezemos sobre o nosso irmão (Pai Nosso comum). Alguém gostaria de ver que boas qualidades tem? Pegamos em folhas e cada um escreve uma qualidade e entrega-lha. Alguém quer falar de algo? Combinamos agora um chá antes da partida.
Variante 2 (efeito diferido):
Cada um dos participantes tenta cumprir um serviço maduro de misericórdia em relação a cada um. O participante recorda qual é o seu “Westerplatte” e depois cada um (exceto o autor) escreve numa folha o que fará neste assunto por ele para o ajudar nisto e entrega-lha. Desta maneira o grupo ata um “contrato” peculiar de que se apoiará no futuro próximo.
Resumo + Aplicação¶
A 11 de janeiro de 2016, durante a oração do Angelus, Francisco dizia: “É necessária hoje a misericórdia e é essencial que os fiéis leigos a vivam e a levem aos diversos ambientes sociais. Avante! Estamos a viver o tempo da misericórdia, este é precisamente o tempo da misericórdia.”
Escolhamos uma coisa que faremos num ato de misericórdia:
Neste retiro
Ao voltar para casa
Na próxima semana
Anotemos estas coisas nos nossos cadernos (ou se alguém preferir - coloquemo-las em folhas dentro da Sagrada Escritura).
Como parte da oração, façamos cada um um sinal de bênção na testa e leiamos Rm 8, 28-30.