Encontro 4 - Minha Hagadá

Etiquetas: Ressurreição, Missão, Palavra de Deus, Tradições judaicas, Trabalho com texto, Perguntas para partilha, Trabalho artístico, Mistagógico

Introdução para o animador

Este é o último encontro em grupos. Será um tempo de uma espécie de resumo do caminho do pequeno grupo. O objetivo deste encontro é, em primeiro lugar, refletir sobre a “minha hagadá” - o que é que na minha experiência de Deus é único. As perguntas-chave do encontro: “O que eu gostaria de contar com a minha vida? O que eu gostaria que os outros lessem em mim?” Em segundo lugar, queremos inspirar os participantes a transmitir conscientemente a história adiante.

Introdução

Ontem, durante o canto Dayenu, dissemos repetidamente que “já teria bastado”. Esta atitude de gratidão e sensibilidade ao bem encanta nos judeus. O nosso retiro ainda não terminou, mas talvez isso não nos impeça de notar já algum elemento sobre o qual poderíamos dizer o mesmo?

  • O que descobrimos durante a Tenda do Encontro?

  • Que momento dos nossos encontros ou do retiro até agora eu gostaria de destacar? Porquê?

O Mistério de Esta Mesma Noite

Durante o jantar do Sêder de ontem, na introdução ouvimos:

Em certo sentido, esta noite faremos uma viagem no tempo. A tradição judaica ensina que cada um deve olhar para si mesmo como se tivesse sido participante da saída da escravidão egípcia.

Isso não é simples! Certas coisas na fé são fáceis de aceitar como que através de um vidro - entender intelectualmente os conceitos, mas olhar como um observador de fora - sem a própria participação.

  • Que elementos da fé me é mais fácil relacionar com a minha experiência?

  • Que momento do Tríduo Pascal, no momento presente, me parece mais próximo da minha espiritualidade?

O autor da carta aos Hebreus dirá: “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”. A Palavra de Deus certamente é assim, mas nós nem sempre estamos predispostos a ela dessa maneira. Na fé, é algo normal para nós funcionar sem essa plena consciência - antes aspiramos a ela, esforçamo-nos por ela.

O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quero explicar a quem me pergunta, já não sei.

—Santo Agostinho

  • Tenho a experiência de que a resposta “foge” quando tento explicar? Que papel desempenha a intuição na minha espiritualidade?

  • Como é a minha aceitação da existência de coisas importantes que “sei, mas se perguntarem não sei”?

Portanto, por um lado, trata-se de uma “viagem no tempo” e vivemo-lo ontem durante o jantar do Sêder, mas ao mesmo tempo até o próprio Santo Agostinho percebe um problema na compreensão do conceito de tempo como crente. Abrir-se a estes mistérios parece exigir de nós entrar no espaço da intuição, do coração, da profundidade.

Na Quinta-feira Santa acrescenta-se uma Anáfora à Oração Eucarística:

Ele, na véspera da sua paixão, * para a nossa salvação e a de todo o mundo, isto é, hoje, tomou o pão em suas santas e veneráveis mãos, elevou os olhos ao céu, * para vós, Deus, seu Pai todo-poderoso, * dando graças vos bendisse, * partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo…

É fácil ignorar estas três curtas palavras, e que coisa tão importante nos recordam.

  • Alguma vez prestamos atenção a esta anáfora?

  • O que pode mudar na vivência da nossa fé tal interpretação “literal” das palavras “Esta é a Mesma Noite” do Precônio Pascal?

“Agora”

Nota

Apotegma (gr. apóphthegma,  matos – sentença, dito) – obra literária curta, em verso ou prosa, apresentando um dito espirituoso, brilhante e acertado de uma personagem eminente (ex. um governante).

Há uma história instrutiva proveniente dos apotegmas dos Padres do Deserto:

Perguntaram, pois, os seus discípulos a um dos padres do deserto: – Abba, porque estás sempre tão sereno, alegre e livre?
Ao que ouviram a seguinte resposta: – Porque vivo o momento presente. E isso permite-me colher da vida a mancheias, sem me preocupar com o passado e o futuro.
Então os discípulos perguntaram-lhe: – Abba, e como fazes isso?
Respondeu: – Quando como, como; quando rezo, rezo; quando trabalho, trabalho; e quando descanso, descanso – respondeu o monge.
– É a mesma coisa que nós – retorquiram os discípulos.
– Não! – respondeu o eremita – Vós, quando rezais, pensais na comida; quando comeis, pensais no trabalho; quando trabalhais, pensais no descanso; quando descansais, pensais no trabalho. Não viver o momento presente, mas rememorar continuamente o passado ou pensar no futuro é a melhor receita para que a vida nos escape por entre os dedos.
  • Como é a minha capacidade de viver no “agora”?

  • De que maneira nos podemos ajudar a nós mesmos daqui a três semanas (ou talvez melhor hoje?) a ser capazes de ser participantes presentes dos mistérios da fé?

Esta sensibilidade ao “agora” é uma das lições mais importantes com a qual vem a nós o Salvador. O Salvador de nome Yehoshua (Jesus), que em si mesmo significa “Yahweh é salvação”, nem “foi salvação”, nem “será salvação”.

Leiamos:

Porque ele é o nosso Deus, e nós povo do seu pasto e ovelhas da sua mão. Se hoje ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações, assim como em Meribá, como no dia de Massá no deserto

—Sl 95,7-8

Vejamos que comentário escreve a este respeito o Catecismo da Igreja Católica:

Aprendemos a rezar em certos momentos, escutando a Palavra do Senhor e participando no seu mistério pascal; mas é em todo o tempo, nos acontecimentos de cada dia, que o seu Espírito nos é oferecido para fazer brotar a oração. O ensinamento de Jesus sobre a oração ao nosso Pai está na mesma linha do da Providência: o tempo está nas mãos do Pai; é no presente que o encontramos, não ontem nem amanhã, mas hoje: «Oxalá ouvísseis hoje a sua voz! Não endureçais os vossos corações» (Sl 95, 7-8).

—CIC 2659

  • O que Deus diz agora à nossa Igreja? Que voz ouvimos?

  • O que Deus me diz agora a mim?

  • Com que 5 palavras definiria o meu “hoje”?

Nota

O animador tira o esquema do templo e a planta da casa de ontem. As diferentes “zonas” marcadas com uma só cor estão “entrelaçadas” nele através de fios (de preferência das mesmas cores que cada uma das zonas) - furadas através do papel e literalmente costurando duas folhas uma na outra. Coloca-as sobre a mesa. É a conclusão de certo leitmotiv - Temos uma casa (profano) e temos o sagrado (templo). Num e noutro temos diferentes “zonas” correspondentes às nossas necessidades. São espaços apenas aparentemente diferentes - estão entrelaçados e não funcionam um sem o outro. (Peço sensibilidade aos animadores - as casas dos ateus podem obviamente funcionar muito bem. Falamos das casas das pessoas crentes.)

Recorramos mais uma vez às palavras de Santo Agostinho e deixemos que ele comente o que vemos:

Lembra-te de que os teus momentos livres e isentos de ocupações estão carregados das maiores tarefas e responsabilidades.

—Santo Agostinho

  • Como relacionas esta frase e esta imagem (folhas costuradas) com a tua vida? Como te sentes com isso?

  • O que perdemos ao dividir o mundo em sagrado e profano?

  • O que posso fazer para diminuir esta divisão na minha vida?

Minha Hagadá

Leiamos:

E naquele mesmo dia farás saber a teu filho, dizendo: Isto é pelo que o SENHOR me fez, quando eu saí do Egito. E te será por sinal sobre a tua mão e por lembrança entre os teus olhos, para que a lei do SENHOR esteja na tua boca; porquanto com mão forte o SENHOR te tirou do Egito. Portanto, tu guardarás este estatuto no seu tempo, de ano em ano.

—Êx 13,8-10

Deus ordenou transmitir o que fez por nós. É uma referência a este místico “agora”.

  • “O que Deus fez por ti no tempo da tua saída do Egito?” - como te sentes com tal pergunta? Como responderás a ela?

  • De que maneira na nossa experiência espiritual acomodamos todos os acontecimentos da história da salvação?

  • O que muda tal perspectiva?

Os acontecimentos da hagadá de ontem não foram no passado - somos as suas “testemunhas oculares”, por isso podemos contá-los. Isso realiza-se no poder do Espírito Santo, mas também numa dimensão muito prática - nunca tivemos uma sensação de escravidão da qual devemos fugir? Nunca nos esquecemos de Deus de tal maneira que, quando o desejo d’Ele acordou em nós, a nossa oração foi como os Salmos de lamentação?

Leiamos:

Louvai ao SENHOR. Louvai ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre. Quem pode contar as obras poderosas do SENHOR? Quem anunciará os seus louvores?

—Sl 106,1-2

Encontrar fragmentos que nos são próximos na Bíblia é apenas a primeira etapa. Deus no Livro do Êxodo disse diretamente “contarás”. O salmista faz esta pergunta que ressoa no ar como uma reprovação - Quem responderá ao chamado do Senhor?

  • O que eu gostaria de contar com a minha vida? O que eu gostaria que os outros “lessem” em mim?

Não é apenas uma questão da nossa decisão. Na realidade, “queira ou não queira conto”. Mesmo quando em alguma situação guardamos silêncio, é um “silêncio significativo”. Também no nosso pequeno grupo funcionamos juntos há 48h - é tempo suficiente para que cada um de nós seja uma história que os outros membros do grupo podem ler e relacionar consigo mesmos.

  • O que contamos uns aos outros desde sexta-feira? Que pensamento de alguém do grupo, ou de alguém da diaconia, foi para mim uma história vivificante sobre o “poder do Senhor, o seu louvor”?

Fonte que é salvação

Conhecer o valor da história. Saber construir relações íntimas nas quais nos escutamos. Interpretar incessantemente, mas nunca querer sobreinterpretar. Não dividir o mundo em sagrado e profano. Não ceder à “tentação da profissionalização”. Contar a alguém o Evangelho como testemunha ocular da ação de Cristo - é uma recolha de pensamentos dos nossos últimos encontros no grupo. É muito, não é? Pode-se levar as mãos à cabeça e dobrar-se sob o peso daquilo a que Jesus nos convida.

  • O que nestes temas que abordamos juntos me parece ser para mim pessoalmente o maior desafio?

Leiamos:

Mas importa que o evangelho seja primeiramente pregado entre todas as nações. Quando, pois, vos conduzirem e vos entregarem, não estejais solícitos de antemão pelo que haveis de dizer, nem premediteis; mas, o que vos for dado naquela hora, isso falai; porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo.

—Mc 13,10-11

E logo depois:

Cada leigo deve ser diante do mundo uma testemunha da ressurreição e da vida do Senhor Jesus e um sinal do Deus vivo. Todos juntos, e cada um por si, devem alimentar o mundo com frutos espirituais e difundir nele o espírito de que são animados aqueles pobres, mansos e pacíficos, a quem o Senhor no Evangelho proclamou bem-aventurados. Numa palavra: “o que a alma é no corpo, isso sejam os cristãos no mundo”.

—Constituição dogmática sobre a Igreja “Lumen Gentium”, LG 38

  • Qual é a fonte que nos permite conduzir uma história que nos ultrapassa?

  • “falai o que vos for dado naquela hora” - o que significa isso para nós?

  • De que maneira apoiar-se na Graça na narração?

Não tentemos ser cristãos que empreendem estar à altura das exigências do Evangelho sem confiar na bênção de Deus. A tarefa que temos pela frente é grande, mas lembremo-nos que se é a vontade de Jesus, Ele mesmo cuidará da eficácia.

Leiamos:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

—Jo 1,1-5

Não há melhor narrador na terra do que Ele, o Verbo! Jesus quer ser o nosso narrador.

Saída

Voltemos para a paróquia e contemos lá o que vivemos aqui. Diante de nós o Tríduo Pascal. A nossa vivência do retiro com o contexto judaico coloca no nosso coração um valor que podemos transmitir adiante.

Nota

O animador distribui pequenos cartões aos participantes

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É uma forma simples. Talvez até de certa forma pouco séria. Mas se podemos ter sem reparos, por exemplo na Sagrada Escritura, pagelas com orações compostas, porque não escrevermos nós mesmos uma pagela assim? Contar nós mesmos uma história curta - colocar-se do lado do criador e não do recetor?

  • Que cartão te seria mais fácil completar e colocar na tua Sagrada Escritura? Porque achas?

  • Que cartão te seria mais fácil completar e oferecer a alguém? Porquê? A quem o entregarias?

Peguemos num cartão e tentemos preenchê-lo durante este encontro.

Nota

O animador dá tempo para que cada um escolha um cartão e o preencha (cerca de 5 minutos)

  • O que te deu esta experiência? O que te disse sobre ti mesmo/a?

Que a aplicação deste encontro seja preencher todos os cartões para o Tríduo Pascal e a decisão de quais entregaremos/mostraremos a outros e quais guardaremos apenas para nós.

Que a história continue!