Encontro 1. - “Ver para ouvir”¶
Objetivo do encontro + introdução para o animador¶
O encontro é curto (é característico da sexta-feira nos nossos retiros). Devemos ter um elemento de apresentação, um momento de introdução às regras dos encontros em grupos; é importante equilibrar bem o tempo para cada ponto de acordo com o que é mais importante. Há poucas perguntas para partilha aqui - reduzimos também as possibilidades onde a partilha poderia desenvolver-se por si mesma. Onde aparecem 3 perguntas num lugar, não fazemos todas nem tentamos fazê-lo. Colocamos a ênfase na humanidade de Jesus, nos aspetos da cruz, mas vamos sempre mais longe - para o silêncio, no qual queremos colocar a ênfase, e o seu papel no acolhimento das palavras de Jesus. A última pergunta antes do resumo (5) deve guiar os participantes para a oração da noite e todo o sábado.
Materiais auxiliares: cartões com exemplos (abaixo como anexo); papel e canetas para escrever 7 frases de apresentação (assumimos que parte fará isso em cadernos ou terá os seus, mas é preciso preparar-se); cartões escritos dos dois lados (1. DEUS, 2. HOMEM).
- Objetivos do encontro:
Conhecer os participantes e introduzir o tema dos retiros
Mostrar a humanidade de Jesus
Mostrar que o mistério da cruz não termina no sofrimento. Não nos detemos no sofrimento
Indicar o valor do silêncio e do calar. É preciso calar para ouvir
Oração e apresentação dos participantes¶
Oração + breve discussão das regras dos encontros em grupos.
Apresentação + ativação
Disposição sobre a mesa de cartões com exemplos do que se pode dizer sobre si mesmo.
IGREJA |
MÚSICA |
NOME |
CIDADE/PARÓQUIA |
HOBBY |
TRABALHO |
ESCOLA |
TEMPO LIVRE |
IDADE |
ANIMAIS |
LIVROS |
MONTANHAS |
MAR |
VIAGEM |
COMBOIO |
CARRO |
MOTA |
BICICLETA |
AMIZADE |
FAMÍLIA |
COMUNIDADE |
FÉ |
POR QUE ESTOU AQUI? |
DEUS |
AMOR |
ESQUI |
TRENÓ |
YOUTUBE |
||
COZINHA |
||
SNOWBOARD |
INFORMÁTICA |
FLORES |
SAGRADA ESCRITURA |
LITURGIA |
LITURGIA |
SILENTIUM SACRUM |
RETIROS |
BOWLING |
Escrever em 7 frases (curtas, não subordinadas nem de outra forma complexas) algo sobre si (quanto mais exemplos nos cartões, melhor). Trata-se de pensar (MUITO BREVEMENTE) e decidir o que é importante para mim/o que quero transmitir aos outros sobre mim/como quero apresentar-me - uma frase deve conter o nome!
Aviso
É preciso sublinhar fortemente que deve ser uma apresentação e não se trata de expor toda a sua profundidade de vida, mas que alguém olhando para a Ala, saiba: “A Ala gosta de conduzir carro/mota/e tudo o que tem rodas, e além disso o amor é importante para ela”. (Assim como Jesus era homem (carpinteiro de profissão), e no entanto olhando para Ele penso frequentemente “cruz e ressurreição”).
Apresentação lendo as suas 7 frases.
- Resumo:
Conhecemo-nos mais ou menos. Cada um de nós tem algo que outro não tem. No entanto, há elementos que temos em comum. Todos comemos, bebemos, sentimos, pensamos, amamos. Numa palavra, cada um de nós é um ser humano. Jesus também foi homem e queremos refletir um momento sobre isso, porque não é assim tão óbvio.
Jesus - homem¶
Distribuímos cartões - num lado escrito “Deus”, no outro “homem”. É preciso acentuar fortemente que não há resposta errada e notar que estamos conscientes de que a resposta pode depender da situação. Trata-se, no entanto, de captar esse “mais frequentemente”.
Perguntemos aos participantes:
Quem vês mais quando olhas para Jesus? Mais Deus ou mais o homem?
Como olhas para Jesus quando vês a cruz durante a oração?
O que pensas quando ouves “Jesus”?
Aviso
Esta não é uma pergunta para partilha. Não queremos deter-nos especialmente nisto, queremos acentuar a humanidade de Jesus, mas vale a pena que as pessoas respondam a esta pergunta para si mesmas, porque apesar do nosso conhecimento sobre as duas naturezas, é-nos muito difícil pensar assim sobre Jesus (o que aliás é muito compreensível, porque é medianamente natural para nós).
A Igreja recorda a humanidade de Jesus:
O Filho de Deus (…) trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano.
—Concílio Vaticano II (Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo atual Gaudium et spes, 22)
O que muda na minha fé a perspetiva de Jesus - verdadeiro homem?
Em que momentos penso mais frequentemente em Jesus como homem?
O que procuro para mim na humanidade de Jesus?
O próprio Deus assemelha-se a nós, em tudo exceto no pecado. “Exceto no pecado” não significa ausência de tentações. Sabemo-lo perfeitamente pela oração no Getsémani, no entanto lá temos frequentemente a sensação de que “a divindade de Jesus leva a melhor sobre a humanidade”: “Contudo, não o que eu quero, mas o que tu queres!” /Mc 14, 36/. Este é um momento que é frequentemente dado como exemplo de que Jesus também pedia a Deus algo diferente, mas que ainda assim seguiu a Sua vontade. Só que no fundo da mente surge que, afinal, Ele era Deus, era mais fácil para Ele aceitar a vontade de Deus do que para nós. A questão é, será mesmo? No mesmo versículo, antes de Jesus pronunciar estas palavras, começa por outras: “Abba, Pai. Tudo é possível para ti. Afasta de mim este cálice”. Vale a pena prestar atenção à palavra “Abba”. Jesus, que era Deus, que há muito, e talvez desde sempre, sabia o que O esperava, ia para a cruz em plena consciência e aceitou a vontade do Pai, mostra-se nesta palavra precisamente como uma Criança. Uma Criança que precisa do Papá, uma Criança que precisa de se refugiar nos braços do Papá, porque tem simplesmente um medo mortal. E no entanto - e só agora! - permanece obediente. Conheçamos o texto, retirado do livro de James Martin SJ, “As sete últimas palavras de Jesus”.
Jesus tinha o mesmo corpo que nós. Isso significa que comia como nós, bebia como nós e dormia como nós. Passou pela puberdade. Como homem experimentava desejos sexuais normais. Sabemos que não se casou e viveu em celibato, mas como homem tinha provavelmente necessidades normais. As necessidades em si mesmas não são minimamente pecaminosas. Talvez até se tenha apaixonado por alguma rapariga de Nazaré.
Jesus tinha um corpo. Sabemos que às vezes estava cansado. Numa das passagens do Evangelho adormece no barco no Mar da Galileia. Jesus distendia os músculos, tinha dores de cabeça, náuseas, apanhava gripe, e talvez até uma ou duas vezes tenha torcido o tornozelo. (…) Jesus, como cada um de nós, suava, espirrava e coçava-se. Experimentava tudo o que é próprio do ser humano, do corpo humano – exceto o pecado.
—“As sete últimas palavras de Jesus”, James Martin SJ
Neste momento, com plena consciência de que Jesus foi verdadeiramente um de nós, que sentiu, adoeceu, amou como nós, queremos olhar para a cruz.
Cruz - silêncio - palavras¶
CRUZ
“A crucificação era o castigo mais cruel e humilhante aplicado pelos romanos. A cruz era símbolo de infâmia, nenhum cidadão romano podia ser executado nela. Os judeus consideravam o corpo de um homem executado na cruz como impuro e maldito.”
O que vejo quando olho para a cruz?
O que sinto quando olho para a cruz?
O que penso quando olho para a cruz?
Neste momento queremos assinalar que na cruz encontramos dois aspetos importantes: o sofrimento e a luz/salvação. Dependendo de como se desenrolar a partilha nas perguntas acima, seria bom equilibrar estes dois aspetos (por exemplo, com o teu testemunho) e sublinhar que o sofrimento é inegavelmente importante, mas não queremos limitar-nos a olhar para a cruz apenas neste contexto.
Este é também um bom momento para resumir o que houve até agora no encontro. Olhares para a cruz, na qual está suspenso Jesus, verdadeiro homem, que sofreu, e verdadeiro Deus, que deu a sua vida por mim, Deus, que da cruz quis transmitir-nos algo e o fez.
SILÊNCIO
O animador lê a citação, após o que se segue um momento de silêncio desconfortável. É importante que o silêncio seja suficientemente longo para que se possa sentir que “algo não está bem”. Mantenhamos um pouco o grupo. Com o silêncio acontece que as pessoas tentam quebrá-lo à força, nem que seja com a afirmação: “Fez-se um silêncio desconfortável”, e embora haja silêncio nesta frase, o calar já foi quebrado. As pessoas normalmente não sabem permanecer em silêncio, sentem-se inquietas e inseguras. Como diz o cardeal Robert Sarah: “O ruído adquiriu títulos de nobreza que outrora possuía o silêncio”, e “o ruído acalma o homem como uma droga de que se tornou dependente. (…) Este ruído é, no entanto, uma cura perigosa e ilusória, uma mentira diabólica que permite ao homem evitar o confronto com o seu próprio vazio interior”. Atordoamo-nos com sons e imagens, facebooks, instagrams e whatsapps. E quando alguém nos propõe rejeitá-los, afirmamos que não temos de o fazer, porque não temos problema, isso não nos diz respeito.
Aviso
Em caso algum pedimos a nenhum participante que leia a citação abaixo, para que o peso do silêncio não caia sobre ele. Não queremos que os participantes se stressem a pensar que “se calhar devia dizer alguma coisa”.
No silêncio o homem expressa a sua incapacidade de falar e agir, e abre-se à influência Daquele que é “maior”, e permite-Lhe ser guiado na liberdade que forma a resposta adequada. O silêncio é, de certo modo, abandonar a dimensão humana e abrir-se a algo mais inexprimível, Divino. /Irmã Adelajda Sielepin CHR, O silêncio na liturgia como espaço de ação do Espírito Santo/
Momento de silêncio desconfortável.
Em que momentos experimento o silêncio na minha vida?
O que acontece no meu coração/cabeça quando se faz silêncio?
PALAVRAS
Permanecer em silêncio gera o desejo da Palavra. É a atitude dos ouvintes de Jesus na sinagoga de Nazaré: “Enrolando o livro, devolveu-o ao servente e sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fixos n’Ele” (Lc 4, 20).
O que ouço quando olho para a cruz?
Resumo¶
Jesus na cruz sofreu, sofreu enormemente (às vezes tenho a impressão de que esta palavra é muito batida, que é tão óbvia para nós). A Sua Paixão durou (na própria cruz) 3 horas. Descobrir a humanidade de Jesus ajuda a ver que ser Deus não a facilitou em nada. Sentia cada ferida exatamente como cada um de nós a sentiria. Muitos teriam certamente desmaiado já no caminho para o Gólgota. Se Jesus sentia da mesma maneira todos os desejos e necessidades, da mesma maneira sentia a dor. Da mesma maneira… ou talvez mais forte? Como Deus fê-lo conscientemente, aceitando plenamente a vontade do Pai; sabia que em cada ferida está o pecado, o nosso pecado. 180 minutos de paixão, incluindo apenas cerca de 1 minuto a pronunciar palavras. Quão importantes devem ser estas palavras que Jesus nos deixou. (Fazemos referência aqui ao pensamento da conferência introdutória). Elas são importantes; porque assim como foi conscientemente para a cruz, assim mesmo sabia o que nos queria transmitir; sabia com o que nos queria deixar e é isso que queremos descobrir no tempo que temos pela frente. No entanto, assim como Jesus no tempo da cruz se calou decididamente mais, assim mesmo nós devemos calar-nos; devemos entrar no silêncio, que é indispensável para ouvir o que me diz a Cruz, porque, como diz Bento XVI:
Temos antes a sensação de que no excesso de palavras faltou o mais essencial: a entrada no silêncio de Jesus, de onde nascem as Suas palavras. Se não conseguirmos entrar no Seu silêncio, ouviremos as palavras apenas superficialmente e não as compreenderemos realmente.
—Bento XVI
Aplicação e oração final¶
- Aplicação:
- Pergunta ao grupo, em que nos queremos concentrar durante estes retiros à luz do que já ouvimos. É bom acentuar que isto é ainda o início e de nós depende a decisão do que faremos com este tempo, mas ao mesmo tempo é o momento onde é preciso tomar esta decisão para acolher plenamente as graças que Deus preparou para nós neste tempo.Se o propósito não surgir do grupo, vale a pena colocar a ênfase no silentium sacrum, a entrada neste silêncio que haverá depois da oração da noite, para dar a Deus espaço para agir no coração.
- Oração:
- Pedido ao Espírito Santo pelos frutos dos retirosConfiar em silêncio o propósito e o tempo dos retiros“Tu que por nós sofreste feridas”