Encontro 3. - “Tenho sede”

Etiquetas: Desejos, Eucaristia, Cruz, Trabalho com texto, Perguntas para partilha, Bíblico

Objetivo do encontro + introdução para o animador

O encontro sobre os desejos deve preparar-nos diretamente para o encontro com Cristo na Eucaristia, durante a oração da noite. Para alguns participantes o encontro pode ser embaraçoso, porque na sua vida podem ter esquecido sistematicamente o que eles desejam em favor dos desejos das pessoas à sua volta. Não queremos realizar um trabalho terapêutico em 1h 10 minutos - este não é o objetivo dos animadores. Queremos, em vez disso, transmitir aos participantes que vale a pena ir com o tema dos desejos a Jesus e falar com ele sobre isso.

Objetivos do encontro:
  • tomar consciência dos próprios desejos

  • ver que Jesus também deseja

  • ver o que Jesus deseja

Os nossos desejos

Nota

Propomos uma oração ao Espírito Santo pedindo que nos mostre sob uma nova luz os nossos desejos.

Na fé o tema dos desejos e da vontade é no mínimo complicado. Ouvindo atentamente o que está contido na Sagrada Escritura, e mais ainda em diversas orações piedosas e cânticos, pode-se chegar à impressão (errónea) de que a pessoa religiosa não deveria ter nenhum desejo nem vontade. Dizemos “Seja feita a vossa vontade” no Pai Nosso. Cristo no Horto reza “mas não se faça a minha vontade”. No confessionário pode-se ouvir falar de “desejos desordenados”.

Nota

Encontrado na internet num fórum durante a preparação deste roteiro: “Odeio esta oração, mas se é assim a vontade de Deus, pois que remédio, é preciso adaptar-se a ela.”

Hoje no encontro queremos falar sobre os desejos dos crentes. Leiamos:

Chega uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus diz-lhe: «Dá-me de beber». Pois os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. Diz-lhe a mulher samaritana: «Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou samaritana?» Porque os judeus não se dão com os samaritanos. Jesus respondeu-lhe: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz: “Dá-me de beber”, tu lhe terias pedido a ele, e ele te teria dado água viva». Diz-lhe a mulher: «Senhor, não tens com que a tirar, e o poço é fundo; de onde, pois, tens a água viva? Acaso és tu maior do que o nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual beberam ele, os seus filhos e os seus gados?» Jesus respondeu e disse: «Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna». A mulher disse-lhe: «Senhor, dá-me dessa água, para que não tenha mais sede, e não venha aqui tirá-la».

—Jo 4,7-15

  • De que desejo fala a Samaritana, e de qual Jesus?

  • Cristo fala de eliminar (apagar) o desejo da vida, ou da sua satisfação permanente (ou mesmo satisfação contínua)?

Toda a conversa começa pela água, isto é, pela necessidade de satisfazer um desejo biológico. No entanto, Cristo passa muito rápido desta experiência comum das pessoas que vivem no Médio Oriente (e de facto de todas as pessoas em geral) para algo mais profundo.

Pois esse mesmo Deus, que declara que não tem necessidade de nos dizer se tem fome, não hesitou em mendigar à Samaritana um pouco de água. Estava sedento… Mas ao dizer “Dá-me de beber”, o Criador reclamava precisamente amor da sua pobre criatura. Estava sedento de amor… Ah! Sinto-o mais do que nunca: Jesus tem sede.

—Santa Madre Teresa de Calcutá

Cristo mostra ao homem os seus desejos. Assim como à Samaritana, aproxima-se de cada um de nós e diz o que deseja. Desta maneira provoca em nós perguntas importantes sobre o que desejamos nós mesmos.

Nota

Não tentemos cortar estas perguntas. Se no encontro não partirmos dos próprios desejos, o encontro pode ser “vazio”.

  • Que papel desempenham os desejos na minha vida?

  • O que faço com os meus desejos? (A vida “passa”, ou na vida guio-me por desejos?)

  • Como reconheço os meus desejos?

Começámos o encontro de hoje mostrando de forma ligeiramente provocatória os crentes como pessoas que “ignoram os seus desejos” em nome de uma religiosidade mal compreendida. Agora vemos claramente Cristo, que nos dirige para a reflexão sobre os próprios desejos. Será isto uma “novidade” no Novo Testamento? De modo algum. Leiamos:

Até quando, Senhor, me esquecerás para sempre? Até quando ocultarás de mim o teu rosto? Até quando terei dúvidas na minha alma, e tristeza no meu coração cada dia? Até quando o meu inimigo se exaltará sobre mim? Olha, responde-me, Senhor, meu Deus! Ilumina os meus olhos, para que não durma na morte.

—Sl 13,2-4

  • O que deseja o salmista?

  • De que maneira avalias a franqueza com que expressa os seus desejos?

Jesus na Cruz

Nota

Esta parte do encontro tem caráter de transmissão de conhecimento. Não a evitemos. Adapta a informação aqui contida aos teus participantes.

Leiamos:

Depois disto, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: «Tenho sede». E estava ali um vaso cheio de vinagre. E encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a num hissopo, lha chegaram à boca. E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: «Está consumado». E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

—Jo 19,28-30

  • A que desejo se refere Jesus?

Neste fragmento é usada a palavra grega “διψω” (dipso), que literalmente significa “quero beber”. Tal tradução literal faz sentido e indubitavelmente a Jesus agonizante na cruz faltava água. No entanto, de maneira similar ao fragmento com a Samaritana, vemos nisto também um segundo significado. Dirige-nos para esta interpretação, por exemplo, o Sl 42,2: “Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!” (Justapor estes dois “tipos” de desejo não é de todo uma ideia nova). O evangelista escreveu que Cristo queria, “para que se cumprisse a Escritura”. Que Escritura?

Nota

Pode haver perguntas sobre o hissopo – manjerona síria, cujos ramos atingem até 90 cm de comprimento. É difícil explicar por que se usou esta planta durante a crucificação. Muitos tradutores modernos creem que a palavra pode ter sido confundida durante a cópia, devido à sua semelhança com a palavra grega que significa lança. Os mais inquisitivos podem também procurar inconsistências nos relatos evangélicos - Mt fala de dar de beber vinagre a Jesus, assinalando que Jesus “provou, mas não quis beber”. No entanto, as palavras usadas em ambos os textos indicam duas coisas diferentes - Mc e Mt mencionam um narcótico, dado aos condenados para aliviar a dor, enquanto a bebida de que se fala em João é vinagre de vinho diluído, que bebiam os soldados e trabalhadores.

Nota

Vale a pena saber que nos círculos de céticos é comum a teoria de que isto não é o cumprimento de profecias, mas que os Evangelhos surgiram tantos anos depois dos eventos no Gólgota, que os autores os escreveram “piedosamente” para que saísse bem. Vale a pena ter isto em conta ao dirigir este encontro. Vale a pena que tu, animador, penses antes como te relacionas tu mesmo com isto. Como coautor do roteiro posso dizer com convicção que toda a vida de Jesus esteve tão marcada pelo simbolismo, que a referência consciente de Jesus a eles no momento culminante não me choca em absoluto com a fé e a lógica.

Leiamos:

A minha garganta seca como um caco, a minha língua pega-se ao paladar

—Sl 22,16

Ou talvez Jesus se refira a um fragmento de outro salmo. Leiamos:

Responde-me, Senhor, porque a tua bondade é boa; volta-te para mim segundo a multidão das tuas misericórdias! Não escondas o teu rosto do teu servo; responde-me depressa, porque estou em angústia! Aproxima-te da minha alma, redime-a; livra-me por causa dos meus inimigos. Tu conheces a minha afronta, a minha confusão e o meu opróbrio; diante de ti estão todos os meus adversários. O escárnio quebrantou o meu coração, e estou doente; esperei quem se compadecesse de mim, e não houve ninguém; e consoladores, e não os achei. Deram-me fel por mantimento, e na minha sede deram-me a beber vinagre.

—Sl 69,17-22

  • Que sentimentos expressa este fragmento? O que deseja o salmista?

O que deseja Jesus?

Falámos sobre os nossos desejos. Vimos que os nossos desejos não são indiferentes a Cristo. Os desejos são importantes. Com que frequência falamos deles?

Aviso

É preciso ter cuidado para não chegar à conclusão - não conheço os desejos de ninguém - não tenho amigos. Partilhar desejos é um fator forte e bastante frequente, mas não é necessário - pode-se construir uma amizade sem isso.

  • Os desejos de quem conheço?

  • Com quem partilho os meus desejos?

  • O que se sente ao ouvir sobre os desejos de alguém?

  • O que se sente ao falar dos próprios desejos?

Partilhar os próprios desejos é um dos “materiais de construção” básicos das relações interpessoais profundas. Muitas pessoas conhecem as minhas conquistas e defeitos, o meu estilo de falar e hábitos. Tais coisas constituem o “espaço público” da minha pessoa. Sobre quem conhece os meus desejos decido eu mesmo. Partilhar desejos é um dos distintivos da relação de amizade.

Cristo quer uma relação connosco. Quer conhecer os nossos desejos, o coração, mas quer também o contrário - que nós conheçamos os Seus desejos. Às vezes conhecer mutuamente os desejos leva muito tempo e mesmo depois de muitos anos haverá ainda muito por descobrir.

Durante um pequeno-almoço solene por ocasião das bodas de ouro matrimoniais, a esposa pensou: “Há cinquenta anos que cedo sempre ao meu marido a parte superior e estaladiça do pãozinho, hoje tenho direito a fazer um banquete com esta iguaria favorita”. E tomou a parte de cima do pãozinho, a de baixo deu-a ao marido. Perante isto, o idoso beijou com alegria a mão da sua esposa e confessou: “Querida, deste-me a alegria do dia. Cinquenta anos que não comia a parte de baixo do pãozinho, embora seja o que mais gosto. Todo o tempo pensei que já que tu gostavas tanto, tu tinhas prioridade sobre ela”.

—Anónimo

Tentemos pensar em Jesus em tal contexto:

Nota

Se o grupo tiver problemas para recordar fragmentos, o animador deve estar preparado para dar um par de exemplos: Jesus desejava curar, desejava ensinar-nos, desejava salvar-nos, etc. Se o ponto “não encaixa”, passemos simplesmente depois de algo assim a ler fragmentos na seguinte parte do roteiro.

  • Vem a ti um conhecido e faz-te uma “pergunta simples”: “O que desejava Jesus?” - o que respondes?

  • Que momentos da vida de Jesus associamos (fragmentos da Sagrada Escritura) que nos mostram o que deseja Jesus?

Deus partilha muito abertamente connosco os seus desejos. Não temos um Deus que cria adivinhas e se pergunta se decifraremos corretamente o resultado. Cristo durante toda a sua vida “falou claro” sobre o que lhe importava e para que veio.

Leiamos:

Vim lançar fogo* na terra; e que mais quero, se já está aceso?

—Lc 12,49

Leiamos:

E aconteceu que, estando ele numa das cidades, eis que um homem cheio de lepra, vendo a Jesus, prostrou-se sobre o rosto, e rogou-lhe, dizendo: «Senhor, se quiseres, bem podes limpar-me». E ele, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: «Quero, sê limpo». E logo a lepra desapareceu dele.

—Lc 5,12-13

Leiamos:

Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.

—Os 6,6

Leiamos:

Disse-lhe pois Pilatos: «Logo tu és rei?» Jesus respondeu: «Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz».

—Jo 18,37

Leiamos:

[Jesus] tomando de novo os doze, começou a dizer-lhes as coisas que lhe haviam de acontecer: «Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e o condenarão à morte, e o entregarão aos gentios. E o escarnecerão, e açoitarão, e cuspirão nele, e o matarão; e, ao terceiro dia, ressuscitará».

—Mc 10,32b-34

Imediatamente antes da paixão, Cristo em oração ao seu Pai mostra-nos os seus desejos e motivações mais profundos. É a oração sacerdotal de Cristo.

Leiamos:

Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. E todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas; e neles sou glorificado. E eu já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse. Mas agora vou para ti, e digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos. Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles eu me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade. E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim. Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo.

—Jo 17, 9-24

  • O que pede Cristo para nós?

  • O que significa para mim a escolha por Cristo da unidade como desejo principal?

  • Com que desejo de Jesus me identifico mais?

Como resumo leiamos:

São explicações simples; fazem sentido, atêm-se aos factos. No entanto, permiti-me mais uma vez sugerir algo ainda mais enriquecedor para a nossa compreensão do Calvário. Relaciona-se com João Evangelista e o seu simbolismo. Refiro-me aqui ao uso frequente da sua parte de palavras e frases que sugerem mais do que podem dizer explicitamente. Como podemos ligar o “Tenho sede” de Jesus com o próprio simbolismo de João?

Comecemos por um evento evangélico que certamente conheceis. Recordais como Pedro, para proteger Jesus, puxou da espada e cortou a orelha direita a Malco, servo do sumo sacerdote. O que disse Jesus a Pedro? “Mete a tua espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18, 11). Que cálice? O sofrimento e a morte. Recordai como Jesus se ajoelhava no jardim do Getsémani coberto de suor sangrento, porque o Seu corpo estremecia diante do sofrimento, diante da morte, e no entanto orava: “Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22, 42). Na cruz, o desejo físico em si, um desejo tal como se sente depois de um dia sem água no deserto, era certamente enorme; mas não era o desejo físico que prevalecia na mente de Jesus. Acima de tudo, Jesus desejava beber o cálice do sofrimento e da morte, bebê-lo até à última gota. Porquê? Porque só então, quando provou o vinho amargo da morte, a vontade do Seu Pai se cumpriu.

O que era então o desejo mais profundo de Jesus, muito maior que o desejo de água ou vinho? Simplesmente, desejava cumprir aquilo para o que nasceu. Mais que qualquer outra coisa na vida desejava a morte. Por nós. Por puro amor.

—Walter Burghardt SJ, “O amor é uma chama do Senhor”

Eucaristia - encontro de desejos

Visto que sabemos que nós desejamos a Deus e que Deus deseja encontrar-se connosco, surge a pergunta de como podemos encontrar-nos. Onde podemos encontrar-nos. O pecado é o que separou o homem de Deus.

  • Em que circunstâncias me é mais fácil encontrar-me com o Deus pessoal?

  • Que elemento da Santa Missa é para nós o mais pessoal? Quando é um encontro pessoal?

A Eucaristia é na sua estrutura um diálogo!

Estrutura da Liturgia da Palavra:
  1. Leitura da Escritura (Deus fala-nos),

  2. Salmo responsorial (O homem responde a Deus),

  3. Evangelho (Deus fala-nos),

  4. Oração dos fiéis (O homem responde).

Hoje à noite viveremos o ponto culminante dos retiros. Depois de ouvir as 7 palavras de Jesus queremos encontrar-nos com Cristo na Eucaristia.

Os Documentos Conciliares ao falar da Eucaristia usam o conceito de que é “fonte e cume de toda a vida cristã” (Concílio Vaticano II, const. Lumen gentium, 11). “Os restantes sacramentos, assim como todos os ministérios eclesiásticos e obras de apostolado, estão vinculados com a sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Com efeito, na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa” (Concílio Vaticano II, decreto Presbyterorum ordinis, 5). E embora certamente todos o sintamos, sabemos pela prática que amadurecemos gradualmente para tal vivência da Santa Missa e nem sempre a percebemos desta maneira.

Leiamos:

A fonte deseja que se beba dela

—São Gregório de Nissa

  • Qual é o “sentido” da existência de uma fonte? O que “pode fazer” a fonte?

  • O desejo de Cristo é satisfazer os Teus desejos - como afeta esta perspetiva a Tua vida?

Leiamos:

O simbolismo da fonte ajuda-nos a compreender mais profundamente o simbolismo do coração. Porque normalmente, quando ouvimos falar do coração, pensamos nele como sede dos sentimentos. Mas o coração deve ser visto como símbolo da pessoa que se dá a si mesma. Nisto consiste o amor, porque o amor não é um sentimento. Claro, com o amor estão relacionados os sentimentos, mas a essência do amor não é o sentimento, mas um ato da vontade, através do qual a pessoa faz dom de si mesma. Precisamente a fonte expressa esta atitude de dar, de dar-se a si mesma. A inscrição que se encontra na borda de pedra de certa fonte: “Simples é a minha tarefa, dar e apenas dar”, expressa muito acertadamente do que fala a fonte, a água que brota incessantemente. Água, poder-se-ia dizer, em estado de dar, de dar contínuo.

—Pe. Franciszek Blachnicki

No encontro de desejos está inscrita… a sensação de insaciabilidade! Esta insaciabilidade incessante constrói o caminho de amadurecimento. A fé é o encontro do homem desejante com o Deus desejante. Desejamos estar juntos, desde que tivemos de deixar o Éden.

Comunidade de desejantes

Vimos claramente duas perspetivas. Resumamo-las:

Leiamos:

Lembro-me dos dias antigos; medito em todas as tuas obras; reflito na obra das tuas mãos. Estendo as minhas mãos para ti; a minha alma tem sede de ti, como uma terra sedenta. Responde-me depressa, ó Senhor, porque o meu espírito desfalece; não escondas de mim o teu rosto, para que não chegue a ser semelhante aos que descem à sepultura.

—Sl 143,5-7

Leiamos:

E disse-lhes: «Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça; porque vos digo que não a comerei mais, até que ela se cumpra no reino de Deus». E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: «Tomai-o, e reparti-o entre vós; porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus». E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: «Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim». Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: «Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós».

—Lc 22,15-20

Quanto quereríamos que tal justaposição da Sagrada Escritura fosse o mais amplamente conhecida! Que abordagem tão diferente da fé que o cumprimento de diretrizes, o medo do julgamento e o sentido do dever. Tal perceção da fé dar-nos-ia a todos alegria.

Até agora falámos dos desejos de Jesus e dos nossos individuais. Estas duas perspetivas são as mais próximas de nós, as mais naturais. No entanto, não estamos sós nestes desejos.

Leiamos:

Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo (…) De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.

—Fl 2,1-8

  • O que é o “cumprimento do gozo” de são Paulo?

  • Com que frequência olhas para os outros na Comunidade da Igreja como para quem deseja o mesmo que Tu?

Os desejos são algo incrivelmente pessoal, distintivo da relação. Com isto começámos o nosso encontro. Os crentes alargam os seus corações e descobrem que os “desejos mais profundos e íntimos” dos seus corações não são de todo incompreensíveis para os que os rodeiam. Isto muda tudo. O próximo a partir deste momento não é uma pessoa que é co-utilizador do mesmo espaço vital que nós. O próximo é uma pessoa que no fundo é igual a mim. Tem o mesmo desejo de amor e de encontro com Deus. Cada um de nós é um microcosmos separado, um mistério, uma individualidade, mas isto une-nos: todos desejamos a Deus e o amor mais que qualquer outra coisa. Uns de nós já o sabem e chamam-lhe assim, outros sentem-no, mas não sabem como expressá-lo. Estamos em diferente etapa da mesma busca.

  • De que maneira podemos ajudar-nos nesta “comunidade de desejantes”?

  • O que muda tal olhar para os outros à minha volta?

Nota

Este é um bom lugar para o testemunho do animador sobre a Comunidade da Igreja na qual recebe fortalecimento de outros “desejantes” no caminho para a unidade com Deus.

Resumo e aplicação

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigénito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (Jo 1,18). O Deus encarnado revelou-nos que Deus deseja os nossos desejos, quer amar-nos, quer estar presente na nossa alma e inundar-nos com a sua misericórdia. Quer continuar a dar-se, tal é a Sua natureza. O nosso Deus “tem apenas tanto quanto dá”.

—H. U. von Balthasar

Como resumo leiamos:

Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti.

—Santo Agostinho

Que a aplicação deste encontro seja a preparação de hoje para a Eucaristia. Imediatamente antes do seu início encontremos 5 minutos (não é preciso mais) para nos fazermos perguntas:

  • O que desejo agora? Com que intenção venho à Missa?

  • Por que quero participar nesta Eucaristia?

  • O que deseja Deus de mim?

Com as respostas a estas três perguntas que nos encontre a procissão de entrada.