Encontro 2. - Amores “reconciliados”

Etiquetas: Amor, Relacionamentos, Liberdade, Trabalho com texto, Discussão, Formativo

Objetivo do Encontro

  1. Mostrar o amor de Deus como ágape e eros simultaneamente. Mostrar que o cristianismo absolutamente não exige do homem sacrificar o corpo, que exclui a corporalidade humana da ordem do amor.

  2. “O meu amado é meu, e eu sou dele” - o amor descrito no Cântico dos Cânticos como uma entrega total e voluntária à outra pessoa, como plenitude do encontro de duas pessoas.

  3. O caráter extraordinário do Cântico dos Cânticos, um livro que louva, é a bênção de Deus sobre o amor humano.

Introdução para o animador

Hoje continuaremos a leitura e a consideração do texto do Cântico dos Cânticos. Quanto ao método, a reunião de hoje não muda. No entanto, não é necessário hoje desenvolver muito a parte em que imaginamos os eventos individuais, porque o mais importante será a conversa sobre o todo e tirar conclusões de toda a leitura.

Oração inicial

Oração ao Espírito Santo pelo dom de entendimento da sua palavra, pelo dom de sabedoria. E outras intenções segundo o critério do animador.

Análise do texto

A primeira parte da reunião parece semelhante a ontem. Lemos os cap. de 6 a 8 e tentamos imaginar uma a uma as cenas individuais. Vale a pena prestar atenção à cena do encontro após a busca no final do cap. 5 e analisar as palavras que os apaixonados dizem um ao outro. Especialmente o amado, que não repreende sua escolhida por não lhe ter aberto no dia anterior. Ele a encontra espancada, suja, sem roupas (porque procurava seu amado à noite – ver Cântico 5,7). O segundo elemento ao qual vale a pena dedicar mais atenção é o próprio ato do casamento (sexto cântico – Cântico a partir de 8,5), no qual os esposos louvam o amor. Um amor que os absorveu completamente. (Vale a pena, por exemplo, enfatizar que as palavras “Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre o teu braço” não foram escritas por Rubik, espero que isso não seja uma surpresa para ninguém).

Características do amor

Em seguida, tentemos junto com os participantes escrever com base em todo o texto as características do amor descrito no Cântico dos Cânticos. Como ele é? Tentemos dar tantas características quanto possível. Quando terminarmos, comparemos essas características com o “Hino ao amor” de São Paulo (1 Cor 13). Deveria ser que todas as características do amor do Cântico dos Cânticos se encontram em São Paulo. Se os participantes tiverem problemas para escrever tais características, pode-se inverter a ordem e lendo as características individuais do amor em São Paulo tentar buscá-las no Cântico dos Cânticos.

  • O amor do Cântico dos Cânticos é apenas amor sensual?

  • Só assim podemos percebê-lo?

  • Se não, por quê? O que mais ele abrange?

Partindo dessas perguntas, tentemos junto com os participantes determinar se o amor do Cântico dos Cânticos divide o homem em partes que podem amar e são dignas de ser amadas, ou se trata o homem, a pessoa de maneira integral. Que a conclusão sejam as palavras de João Paulo II da homilia sobre o Cântico dos Cânticos:

A aspiração do amor é a busca da perfeição da vida, que abraçaria sinteticamente toda a beleza do homem, a beleza da alma e do corpo.

—João Paulo II

Amores “reconciliados”

O amor no Cântico dos Cânticos não é uma contraposição do amor sensual, humano com o amor entendido como dom de si mesmo, é sua síntese. Tentemos refletir se as palavras que pronuncia a amada: “o meu amado é meu, e eu sou dele” podem referir-se apenas ao amor sensual. (Ao falar desses tipos de amor, pode-se, mas não é necessário, usar os termos ágape e eros.)

  • O que expressam essas palavras pronunciadas pela amada?

Como síntese deste ponto, pode-se ler o comentário de G. Ravasi:

O amor no Cântico dos Cânticos é uma mistura de eros e ágape na plenitude do encontro entre duas pessoas. O amor é exaltação e experiência emocionante da beleza, da estética, do encanto – físico e espiritual. […] Confirmam isso numerosos símbolos, metáforas, imagens de felicidade, tão característicos do Cântico dos Cânticos. Além disso, no final todas essas comparações proclamam a total singularidade, a incomparabilidade do amor. […]

A dinâmica do amor na visão do Cântico dos Cânticos, é ao mesmo tempo posse e liberdade. A inquietação, a ausência e a busca, que aqui e ali aparecem no Cântico dos Cânticos, atestam que o amor é identidade e ao mesmo tempo autonomia, é posse e dom. Mostra-se desta maneira a «característica de impossibilidade de apropriação e de entrar em posse de uma pessoa por outra. A pessoa é alguém que supera todas as medidas de apropriação e domínio, posse e cumprimento» (João Paulo II, 6 VI 1984). O dom livre de uma pessoa para a outra supera essa impossibilidade.

É precisamente isso que expressam as palavras da amada, ela faz um dom de si mesma, assim como fez seu amado. O mesmo expressará São Paulo escrevendo: “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.

É uma confissão de amor de São Paulo. A confissão de amor cristão (união de eros e ágape) é precisamente pronunciar após a amada as palavras “o meu amado é meu, e eu sou dele”.

Síntese

Vale a pena prestar atenção também ao fato de que o amor de Deus pelo homem é a maior e melhor síntese de ágape e eros. Não se pode ler o amor de Deus apenas em uma dessas dimensões. Vê-se perfeitamente no fragmento de Oseias que consideramos ontem na Escola Nova. Veremos isso mais uma vez hoje em Isaías.

Visto que devemos imitar o amor de Deus, por isso também nós devemos amar com a união desses dois aspectos do amor. Mais uma vez e muito enfaticamente deve-se sublinhar que o cristianismo não exige de nós a rejeição da corporalidade, da sexualidade!

No final das reuniões de grupo, perguntemos aos participantes sobre suas impressões da leitura do Cântico dos Cânticos. Como pensam, por que este livro se encontrou na Sagrada Escritura? O que nos ensina?

Pode-se dizer também que o Cântico dos Cânticos é também um livro extraordinário na tradição judaica. Louva a monogamia, que coexistia naquele tempo junto com a poligamia (um homem podia ter até 5 esposas, um rei até 18). Rompe com a compreensão do casamento como uma troca comercial entre famílias. Finalmente dedica muita atenção ao amor da mulher, seus sentimentos, desejos. Descreve também em toda a sua beleza a corporalidade da mulher. É uma situação inaudita na literatura de Israel. A mulher neste livro é o mais importante, é a coroação da criação, a criatura mais bela. Esta descrição no Cântico dos Cânticos refere-se diretamente ao fragmento:

Da costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus formou uma mulher e a apresentou ao homem. O homem exclamou: «Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Chamar-se-á Mulher, porque foi tirada do homem». Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe e se une à sua mulher, e os dois tornam-se uma só carne.

—Gên 2,22-24

A admiração de Adão pela mulher é a mesma admiração que expressa o amado no Cântico dos Cânticos. No Gênesis, além disso, não é a mulher que vai morar com o marido, mas o homem vai à casa da mulher. Nas primeiras culturas eram as mulheres precisamente que desempenhavam papéis dominantes na vida social e intrigavam os homens, atraíam-nos, eram um mistério para eles. No Cântico dos Cânticos vemos já uma mudança de tradição quanto ao local de residência após o casamento, mas a mulher continua a ser tratada como a coroação da criação.

Oração final

Oração final pelos frutos deste retiro e uma boa preparação para a Páscoa da Ressurreição. Forma segundo o critério do animador.