Encontro 3. - "7 petições" ************************** .. tags:: conteudo|oracao|Oração, conteudo|comunidade|Comunidade, conteudo|relacionamentos|Relacionamentos, conteudo|maturidade|Maturidade, metodo|trabalho-com-texto|Trabalho com texto, metodo|discussao|Discussão, metodo|trabalho-em-grupo|Trabalho em grupo, tipo|formativo|Formativo Introdução para o animador e objetivos ====================================== Hoje, no quadro da formação, passamos por vários "aspetos" da vida. De manhã, na conferência, falámos de ação de graças e~gratidão. À~noite, durante o serão e~a~oração da noite, abordaremos o tema do pedido de perdão e~da prontidão para reconhecer que estamos em caminho / em processo. O~encontro de grupo concentra-se à~volta da súplica. A~Missa de hoje tornou-se a~ligação entre a~ação de graças e~a~súplica. A capacidade de pedir tem um caráter muito dinâmico na nossa vida. Às vezes custa-nos, e~às vezes vem-nos demasiado facilmente (e~isso também não é bom). Este encontro quer captar essa dinâmica, ao mesmo tempo que nomeia e~torna familiares três etapas do desenvolvimento da "dependência dos outros", para estarmos prontos a~amar o "pedido" (e, portanto, também a~dependência dos outros). A primeira parte do encontro concentra-se no conhecimento e~nos conteúdos; a~segunda tem um acento de partilha. Tempo do encontro: **1h 30min** **Etapas do encontro (linha de pensamento):** #. Ver-nos a~nós mesmos como pessoas dependentes dos outros (e~não apenas de Deus!) #. Ver a~oração do Pai NOSSO como afirmação da dependência #. O~pedido como instrumento de construção de relação #. Não só nós pedimos a~Deus, mas Deus também nos pede **Objetivos do encontro:** - Preparação intelectual (luz) para a~oração da noite (experiência) através da análise da Oração do Senhor como 7 petições - Trabalhar as convicções sobre a~dependência dos outros e~a~afirmação dela (pedir) **Preparar com antecedência:** - Lápis com borracha - Ver o material no YouTube (1 min 30 s) - Folhas com frases características, definições (ver anexo) e~a~oração .. note:: Vale a~pena considerar levar as definições em 2 exemplares, para facilitar o trabalho do grupo. Oração e introdução =================== Antes da oração, pede ao grupo que, antes de começar o encontro, reze uma oração de súplica. Ainda antes de rezarem, faz as perguntas: - O~que nos é necessário neste retiro, pelo que quereis pedir? - O~que nos é necessário neste encontro de grupo? - O~que é necessário aos outros participantes do retiro? .. note:: As duas primeiras perguntas remetem para o esquema da oração da noite de sexta-feira. Que a oração antes do encontro seja uma oração de súplica típica -- tal como a~entendemos e~a~vivemos (pode ser espontânea). Procuremos incluir nela tudo aquilo de que falámos. Ninguém é uma ilha ================== Comecemos o nosso encontro lendo: *Ninguém é uma ilha solitária. Estamos ligados uns aos outros mesmo quando não o sabemos. Une-nos a~paisagem, une-nos o~corpo e~o~sangue -- unem-nos o~trabalho e~a~fala. Nem sempre, porém, temos consciência dessas ligações. Quando nasce a~solidariedade, desperta a~consciência, e~então surgem a~fala e~a~palavra -- então também aquilo que estava escondido vem à~luz. Todas as nossas ligações se tornam visíveis. Então o~homem leva sobre os ombros o peso do outro homem.* -- Pe. Józef Tischner É fácil passar ao lado de um fragmento destes e~dizer simplesmente: "sim, é assim". Procuremos, porém, pensar um pouco mais profundamente em quão ligados estamos uns aos outros. **Dinâmica** Faz uma reflexão sobre o lápis, análoga à~apresentada pelo laureado com o Nobel Milton Friedman (`ver o vídeo `_, até 1:30). Podes preparar este elemento de modo mais interativo, conforme o teu grupo. O~objetivo é mostrar como um objeto aparentemente simples envolve uma longa cadeia de fornecimentos e~serviços em cooperação para chegar ao produto final. .. note:: Outra imagem de vasos comunicantes é a~citação de um pensador contemporâneo: "Se um dia alguém me perguntar o que é o «efeito borboleta», eu digo-lhe que, se em janeiro um chinês come um morcego, em março na Polónia já se chama o elevador com o cotovelo." - Sobre que pessoas tens maior influência por meio das tuas escolhas? - Que pessoas têm maior influência sobre ti por meio das escolhas delas? - Como te sentes com a~ideia de que, por definição, estarás sempre dependente de algo / de alguém? O fato de estarmos todos ligados é a~nossa observação, a~nomeação daquilo que experimentamos. Vemos, portanto, um fato. É legítimo perguntar se isso é "um estado de coisas com o qual temos de nos conformar" ou se tal era a~intenção do Criador. Leiamos: Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A~cada um é dada a~manifestação do Espírito para o bem comum. A~um, pelo Espírito, é dada uma palavra de sabedoria; a~outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a~outro, fé, no mesmo Espírito; a~outro, dons de curas, no único Espírito; a~outro, o dom de milagres; a~outro, a~profecia; a~outro, o discernimento dos espíritos; a~outro, a~diversidade de línguas; e~a~outro, a~interpretação das línguas. -- 1 Cor 12,4-10 - O~que revela o fato de ninguém ter recebido todos os dons? Deus quis que precisássemos uns dos outros. Não é apenas desta passagem da Carta aos Coríntios que podemos tirar essa conclusão -- a~intenção de Deus era ter um Povo Eleito, e~não apenas um conjunto de indivíduos. As ligações entre nós fazem parte do seu desígnio. Por isso, quanto mais conhecemos Deus, mais participamos no mundo (e~não menos). Caminho da humildade ==================== O fato de vivermos numa rede de dependências, relações e~influências mútuas ser intenção de Deus não significa, de modo algum, que cada um de nós, desde o momento da criação, já tivesse esse conhecimento e~não imaginasse outro mundo. A~fé é um processo, e~esse processo tem etapas de maturação. Leiamos: Não digas: «De que preciso eu? Que bens me poderão vir agora?» Não digas: «Basto-me a~mim mesmo; que mal me poderá acontecer?» No tempo da prosperidade esquece-se a~aflição, e~no tempo da aflição já não se recorda a~prosperidade. -- Sir 11,23-25 - Em que situações tenho a~tentação de pensar "basto-me a~mim mesmo"? Porque todos participamos nisto, tentemos olhar para a~questão de fora, para podermos aproximar-nos dela sem constrangimento nem preconceito. **Exercício** Como todo o exercício, também este simplifica em certa medida um mundo complexo. Mesmo assim, tentemos realizá-lo, contando que isso nos leve mais tarde a~reflexões mais profundas. Preparámos frases que talvez cada um de nós pudesse ter pronunciado na sua vida (o animador coloca sobre a~mesa as folhas com expressões características -- ver anexo). Elas pertencem a~três pessoas. Tentemos agrupá-las. - Como caracterizaríamos cada uma dessas pessoas com base nisso? A~cada uma dessas pessoas corresponde uma das descrições. Tentemos atribuí-las de modo simples (o animador tira 3 definições. Depois de um breve momento para as ler, passamos à~parte mais importante do exercício). - Que passagem te parece mais fácil: da etapa I~para II, ou da II para III? Porquê? - Que interdependência com os outros já gostas de viver neste momento? Começamos como pessoas totalmente dependentes dos outros (crianças), para nos tornarmos independentes (a~rebeldia da juventude) e, depois, na nossa independência -- desta vez de modo consciente -- renunciarmos a~ela (maturidade). Esta viagem dura toda a~vida e~tem uma característica comum: a~humildade. É preciso humildade para deixar de esperar que sejam sempre os outros a~servir-nos e~assumir nós mesmos as tarefas. É preciso humildade para, depois de conquistar a~independência, reconhecer que maturidade não é o mesmo que autossuficiência. E, no entanto, não se trata de uma humildade imposta de fora. É uma prontidão interior para a~mudança que, no fundo, nós mesmos desejamos. .. note:: Depois da revolta contra os pais e~contra o sistema, apresentamo-nos por nós mesmos diante das outras pessoas e~diante de Deus, para nos tornarmos pais e~parte do sistema. - Que relação tens com a~palavra "humildade"? A~que te soa? - Em que espaços da tua vida te é fácil pensar em termos de "nós" e~em que espaços isso é motivo de luta? A fé ocupa um lugar especial neste caminho de humildade. Inicialmente, a~fé é determinada pelo "Tu" dos nossos pais. Depois chega um momento em que estabelecemos **a~nossa relação pessoal** com Jesus. Então, por vezes, construímo-la (durante algum tempo) em contraste com aquilo que conhecíamos antes: o "catolicismo de domingo", as "ave-marias rezadas por hábito" etc. Mas também na fé chegamos a~um momento em que, depois de experimentar todo o bem que nasce de encontrar a~própria identidade, a~independência espiritual e~religiosa, começamos a~descobrir o valor do "nós" -- a~comunidade da Igreja. .. note:: Este é um ótimo lugar para o testemunho do animador. Rezado e~pensado no espírito da responsabilidade pela Igreja. É uma ocasião para contar como se pode enraizar na comunidade da Igreja o fascínio (necessário) pela relação pessoal com Jesus. O~Pe. Franciszek Blachnicki escreveu isso da seguinte forma: "Na base destas reflexões está o desejo de que os movimentos na Igreja não se tornem germes de uma nova Igreja, mas permaneçam sempre manifestação da Igreja em movimento, da Igreja viva, isto é, da Igreja em renovação, da Igreja renovada". Oração "Pai NOSSO" ================== Leiamos: Quando rezardes, não vos multipliqueis em palavras como os pagãos. Julgam que, por muito falarem, serão atendidos. Não vos assemelheis a~eles, porque o vosso Pai sabe do que precisais, antes de vós lho pedirdes. Rezai, pois, assim: Pai **nosso**, que estais no Céu, santificado seja o vosso nome; venha a~nós o vosso Reino; seja feita a~vossa vontade assim na terra como no Céu. O~pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a~quem nos tem ofendido; e~não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal! -- Mt 6,7-13 Provavelmente este é o trecho da Sagrada Escritura mais repetido pelas pessoas. Será, por isso, também o mais conhecido? Concentremo-nos, por enquanto... nas duas primeiras palavras desta oração. **"Pai** nosso" "As razões pelas quais as orações judaicas não se dirigem a~Deus como Abba tornam-se claras quando se considera o pano de fundo linguístico desta palavra. Inicialmente, fazia parte do vocabulário infantil. (...) Chamar a~Deus por um nome tão familiar seria, para a~mentalidade judaica, prova de falta de respeito, portanto algo impensável. Foi, por isso, uma novidade absoluta, irrepetível e~excecional, que Jesus Se atrevesse a~dirigir-Se a~Deus de forma tão simples, tão íntima, sem medo, como uma criança ao seu pai. Por isso, não há dúvida de que a~palavra Abba, com que Jesus Se dirige a~Deus, mostra o sentido mais profundo da sua relação com Ele" -- Joachim Jeremias (biblista luterano, que de certo modo "redescobriu" o nome Abba para o cristianismo no século XX), "Abba", 1966 - Nas nossas orações dirigimo-nos mais vezes ao Criador como "Deus" ou como "Pai"? - O~que significa para ti o fato de Jesus querer que comecemos assim as nossas orações? Qual é o papel da oração? O papel da oração é criar espaço para entrar numa relação íntima e~pessoal. Se alguém tivesse necessidade de tentar avaliar a~oração (embora provavelmente isso não seja uma boa prática), esse seria o primeiro critério: graças a~esta oração encontrei-me com Deus (Pai) e~construí com Ele uma relação? "Pai **Nosso"** A segunda palavra da oração é "nosso". A~Oração do Senhor ensina-nos a~amadurecer até à~terceira etapa do nosso exercício! Também esta é uma função da oração -- sair da perspetiva individual e~olhar para o mundo através do prisma do "nós". Vejamos onde Jesus recomenda pronunciar estas palavras. Leiamos: Tu, porém, quando quiseres rezar, entra no teu quarto, fecha a~porta e~reza a~teu Pai, que está escondido. E~teu Pai, que vê o que está escondido, há de recompensar-te. -- Mt 6,6 Por um lado, temos o "quarto" fechado e~a intimidade do «papá» (individualidade); por outro, ao mesmo tempo, temos o "Pai NOSSO" e~o fato de Jesus ter dado à oração uma forma comum (comunidade). - Como interpretas esta articulação feita por Jesus? - Para além do encontro com Deus, que papel tem a~oração? - Como vives a~oração nas chamadas "orações formuladas"? O~que há aí de difícil e~de fácil? Como se relaciona isso com a~comunidade? 7 petições ========== Sabemos que há diferentes maneiras de rezar (técnica) e~diferentes formas de oração (conteúdo). Quanto aos tipos de oração, podemos distinguir 4 básicos: ação de graças, súplica, reparação e~louvor. Na Igreja temos diferentes tradições espirituais, e~aqueles que sem dúvida aprofundaram a~espiritualidade cristã de modo excecional são os carmelitas. Leiamos a~afirmação de um dos padres: As quatro formas da relação do homem com Deus não constituem quatro tipos de oração qualitativamente diferentes. São apenas expressão das situações pessoais em que se encontra quem reza. A~relação fundamental de oração entre o homem e~Deus, independentemente do estado de espírito do crente, permanece invariável. Deus será sempre Criador e~Pai, e~o homem será sempre sua criatura e~filho. São precisamente estas situações que de algum modo determinam o caráter da oração. Reduzem-se a~quatro: louvor com adoração, súplica, reparação e~ação de graças. (...) Não se devem confundir estas formas com os graus de oração, que significam um nível cada vez mais profundo de intimidade com Deus. Em cada grau de oração podem estar presentes todas as quatro formas acima mencionadas. -- Pe. Jerzy Gogola OCD - Em que forma de oração te sentes hoje mais naturalmente? Qual é, para ti, um desafio? Tentemos agora alargar o olhar sobre a~Oração do Senhor e~considerá-la como um todo -- de uma perspetiva mais ampla. Conhecemos este texto demasiado bem e~é preciso um certo esforço para aguçar de novo o olhar ao ponto de ver algo de novo. - Que forma de oração é, então, a~oração do Pai nosso? - De quantas petições é composta? - Quantas dessas petições se referem diretamente às coisas de Deus? Quantas se referem diretamente às coisas humanas? (O animador coloca no centro a~oração "Pai nosso" do anexo). A~oração do Pai nosso é uma oração de 7 petições. Tentemos, separando cada petição e~olhando para ela como algo independente, aprofundar a~nossa compreensão da Oração do Senhor. .. note:: Algo a~considerar para o animador: é uma situação comum que, como crentes, pronunciemos na igreja muitas palavras quase automaticamente, como forma de ritual (o que, em si, não precisa de ser mau). Um testemunho de maturação, cuja mudança visível seja uma maior consciência das palavras rituais pronunciadas, fortalecerá o grupo -- sobretudo quando perceberem que não são só eles a~ter este tipo de dificuldade. - O~que pode significar cada uma das petições? Pelo que rezamos quando a~rezamos? (O animador, com o grupo, passa pelas várias petições. O~objetivo deste encontro não é chegar a~uma "chave de respostas corretas" e~este esquema não pretende, de modo algum, ser tal chave. As informações reunidas -- ver notas de apoio no anexo -- sirvam como inspiração e~eventual direção. Lembrem-se de controlar o tempo. O~mais importante é que, com o grupo, nos lancemos a~uma leitura crítica do texto, isto é, a~uma leitura refletida daquilo que lemos. A~oração do Pai nosso será o ponto culminante da oração da noite. Procuramos agora envolver a~inteligência na análise destes conteúdos, para que à~noite possamos concentrar-nos não tanto nos dados em si, mas nas intenções.) Voltemos, porém, ao nosso esquema. Do lado direito temos uma coluna livre. Ponhamos em relação o I~grupo e~o II grupo de petições com os três determinantes do nosso primeiro exercício. (Durante a~conversa, o animador vai completando ao vivo os elementos em falta). Com que determinante ligaríamos as petições 4-7? Evidentemente, com o "nós"! E~com que determinante ligaríamos as petições 1-3? Evidentemente, com o "Tu". Existe, então, em algum lado o determinante "Eu"? Também já falámos disso hoje... no enquadramento desta oração -- entrar no SEU quarto para rezar. .. list-table:: :widths: 20 12 53 15 :header-rows: 0 * - Contexto - - Tu, porém, quando quiseres rezar, entra no teu quarto, fecha a~porta e~reza... - EU * - Invocação - - Pai nosso, que estais no Céu, - * - I~GRUPO (caráter teológico) - I~petição - santificado seja o vosso nome! - TU * - - II petição - Venha a~nós o vosso Reino; - * - - III petição - seja feita a~vossa vontade assim na terra como no Céu. - * - II GRUPO (caráter eclesial) - IV petição - O~pão nosso de cada dia nos dai hoje - NÓS * - - V~petição - E~perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a~quem nos tem ofendido; - * - - VI petição - E~não nos deixeis cair em tentação, - * - - VII petição - mas livrai-nos do Mal! - A oração do Pai nosso integra todas as etapas do nosso amadurecimento como pessoas. Nela somos crianças, nela somos pessoas à~procura de identidade e~nela somos membros da comunidade dos santos. Oração de súplica ================= É legítimo perguntar porque é que a~oração mais importante é uma oração de súplica. Será que os pedidos não são demasiado interesseiros para poderem ser perfeitos? Alguns de nós não gostam nada de pedir aos outros. - O~que é que mais vezes pedimos a~Deus como Igreja? (por exemplo, intenções de Missa, peregrinações etc.) - Que coisas é que eu peço a~Deus? Existe um certo paradoxo ligado aos pedidos dirigidos a~Deus, que à~primeira vista pode até parecer bastante sério. Se Deus é omnipotente, omnisciente e~misericordioso, isso significa que sabe melhor do que ninguém do que eu preciso, quer dar-mo e~não tem meios limitados para o fazer. O~que muda, então, o meu pedido? Porque é que, então, tenho de pedir? Leiamos: Estou consciente de que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem; querer o bem está ao meu alcance, mas realizá-lo, não. -- Rm 7,18 - A~oração de súplica muda a~"opinião" de quem? A~de Deus ou a~minha? - Como experimento esse benefício do pedido, que nos torna mais sensíveis ao bem? Definitivamente, não é assim que, no cristianismo, os fiéis desempenham a~função de "lembretes" para um Criador distraído que precisa de impulsos para tratar corretamente de todas as coisas. Os pedidos são algo muito mais profundo do que transmitir informação sobre uma necessidade. No início do encontro dissemos que nenhum de nós é uma ilha. Cada pedido recorda-nos precisamente esta condição humana. Por isso é importante que os nossos pedidos não sejam desprovidos de reflexão, mas que tentemos formulá-los com grande precisão. Leiamos uma oração de súplica: *Senhor, dá-me paciência para aceitar aquilo que não posso mudar; dá-me coragem para mudar, com coerência e~perseverança, aquilo que posso mudar; e~dá-me sabedoria para distinguir uma coisa da outra* Como é diferente esta oração do grito: "Deus, faz com que fique tudo melhor"! - O~que aconteceria se, em vez de 10 pedidos a~Deus, pudesses levar apenas um? - O~que muda em mim quando, antes de pronunciar o pedido, me lembro com clareza disto: "o objetivo desta oração não é convencer Deus de nada"? Aprender a gostar de pedir ========================== Os pedidos, portanto, não têm de ser "a~forma final e~indesejada de lidar com uma situação". Ao pedir, revelamos a~alguém os nossos desejos, e~isso cria comunidade! Esta mudança de perspetiva é importante. Imaginemos um mundo em que ninguém faz chá a~ninguém, ninguém serve água a~ninguém e~ninguém pede um abraço a~ninguém. Os pedidos não têm de ser exigentes; podem ser a~linguagem do amor. Afinal, um pedido de casamento também é um pedido! - De que pedidos gostas? Que pedidos te dão alegria? - Como reages quando alguém vem ter contigo com um pedido? Muitas vezes, na Igreja, este caráter criador de comunidade que os pedidos têm escapa-nos. Quando vamos à~Missa, ela é celebrada por uma intenção concreta. Na maioria das vezes, é a~intenção com que alguém foi pedir ao sacerdote a~oração, e~na própria Missa pede a~todos nós que nos juntemos ao seu desejo e~o ofereçamos a~Deus. O~pedido é um convite à~cooperação, ao caminho comum, à~proximidade. - De que modo o pedido de alguém te aproximou de uma pessoa? Tens essa experiência? - Com quem partilhaste os teus desejos e~pediste ajuda para os alcançar? Deus que pede ============= Leiamos: Eu disse: «Ai de mim, estou perdido! Porque sou um homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de lábios impuros, e~os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!». Então voou para junto de mim um dos serafins, trazendo na mão uma brasa que tomara do altar com uma tenaz. Tocou-me com ela na boca e~disse: «Eis que isto tocou os teus lábios: a~tua culpa foi tirada e~o teu pecado apagado». E~ouvi a~voz do Senhor, que dizia: «Quem hei de enviar? Quem irá por Nós?». Eu respondi: «Eis-me aqui, envia-me». E~Ele disse: «Vai e~diz a~este povo: Ouvireis com atenção, mas não entendereis; olhareis com cuidado, mas não compreendereis». -- Is 6,5-9 Não somos só nós a~pedir coisas a~Deus. O~pedido é um instrumento para construir relação, manifestar confiança e~partilhar os próprios desejos. Mesmo quando, de forma quase dramática, gritamos: "Ai de mim, estou perdido!", Deus omnipotente quer pedir-nos ajuda -- Ele, que tudo pode. Na relação da fé, não é só Deus que escuta os nossos pedidos; Deus também quer ser escutado (!). Ele pede alguma coisa -- aqui, hoje... tentemos escutá-Lo juntos hoje. A~aplicação deste encontro pode ser planear (ou realizar) três pedidos que tenham como único objetivo aproximar-nos de alguém. No final, uma oração de súplica. Cada participante do encontro pronuncia exatamente um pedido e, depois, rezamos "Glória ao Pai". Anexo ===== Frases características ---------------------- .. list-table:: :header-rows: 0 * - Quero uma sandes - Sou capaz de fazer isso - Quais são os teus pontos fortes? * - Dá-me de beber - O~que é preciso fazer para vencer? - Que planos temos para amanhã? * - Não quero fazer isso - Consegui mais pontos - Conseguimos! * - Estou aborrecido - Quero tentar sozinho - No nosso estudo mostramos... * - Brinca comigo - Fiz isso sozinho / sozinha - Preciso da tua ajuda * - - Não quero fazer isso agora - Como posso ajudar-te nisso? Definições dos determinantes ---------------------------- Determinante "TU" Começamos a~vida dependentes dos outros; estamos voltados para o fato de que os outros (os pais) satisfaçam as nossas necessidades. Com o tempo, começamos lentamente a~adquirir a~capacidade de orientar os órgãos dos sentidos para os estímulos em ação. Separamos as partes do todo, conhecemos o todo como construído de partes. Começa a~diferenciação: hoje, ontem e~amanhã. Já existe história, mas o futuro permanece indefinido. Procuramos conhecer o mundo que nos rodeia. Formamos o nosso próprio mundo, parcialmente organizado, no qual atua um sentido de autonomia. O~conhecimento adquirido mostra a~fronteira entre fantasia e~realidade e~permite distinguir a~verdade da falsidade. Aprendemos a~contar com os dados concretos, desenvolvemos o espírito crítico. Estes elementos, na escala da maturidade, relativos ao determinante "TU", formam-se desde o nascimento até cerca dos 7 anos, quando começamos a~ir à~escola. O~período dos 7 aos 14 anos é o da formação do EU (período de transição). Determinante "EU" **A independência é o determinante do "EU"**. Isto significa que tentamos fazer algo, realizar, gerir -- respondo, **conto comigo mesmo, faço escolhas.** O~jovem começa a~comparar-se conscientemente com os outros, a~ver-se em relação com eles. Cresce a~experiência de vida e~o~conhecimento da vida, especialmente das pessoas e~das suas questões. **A imagem do mundo e~da vida humana ainda é muito fragmentária** e~muitas vezes ingénua. Não sistematizada, mais aprendida do que refletida. Continuamos ainda presos aos conteúdos escolares. Determinante "NÓS" O~jovem, porém, torna-se adulto. Valoriza cada vez mais a~**interdependência com os outros**. A~interdependência significa que: NÓS podemos cooperar, nós podemos cocriar, nós -- isto é, juntos -- podemos **fazer algo maravilhoso que não é possível sozinho**. Começamos a~precisar dos outros. Quando o jovem se torna adulto, começa a~procurar o~seu lugar na vida. Do confronto real entre intenções e~vida nascem muitas questões que se tornam conteúdo da vida humana. Forma-se a~resiliência e~a~perseverança para superar dificuldades psíquicas e~físicas. É o tempo de realização dos projetos de vida. Começamos a~interrogar-nos sobre a~nossa vida. Tentamos fazer balanços, pensar no que conseguimos alcançar e~no que não conseguimos. Colocamos a~nós mesmos perguntas sobre o sentido da nossa vida e~sobre o fim da nossa existência aqui na terra. Oração "Pai nosso" ------------------ .. list-table:: :header-rows: 0 * - Invocação - - Pai nosso, que estais no Céu, - * - I~GRUPO (caráter teológico) - I~petição - santificado seja o vosso nome! - * - - II petição - Venha a~nós o vosso Reino; - * - - III petição - seja feita a~vossa vontade assim na terra como no Céu. - * - II GRUPO (caráter eclesial) - IV petição - O~pão nosso de cada dia nos dai hoje - * - - V~petição - E~perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a~quem nos tem ofendido; - * - - VI petição - E~não nos deixeis cair em tentação, - * - - VII petição - mas livrai-nos do Mal! - Notas de apoio para as 7 petições --------------------------------- **Introdução:** **2804** A~primeira série de petições leva-nos ao Pai, para sermos para Ele: o vosso Nome, o vosso Reino, a~vossa vontade! (...) "Santificado seja... Venha... Seja feita...": estas três súplicas já foram ouvidas no Sacrifício de Cristo Salvador, mas agora dirigem-se, na esperança, ao seu cumprimento definitivo, porque Deus ainda não é tudo em todos. **1. "santificado seja o vosso Nome"** Que o mundo reconheça o Nome de Deus, a~sua vontade e~os seus mandamentos; que todos reconheçam que Ele é Pai, fonte de todo o bem. **2814** Quando dizemos: "Santificado seja o vosso nome", pedimos que ele seja santificado em nós, que estamos n'Ele, mas também nos outros, sobre os quais a~graça de Deus ainda espera, para cumprir o mandamento que nos obriga à~*oração por todos*, até pelos inimigos. Eis porque não dizemos estritamente: Santificado seja o vosso nome "em nós", porque pedimos que ele seja santificado em todos os homens. **2. "venha a nós o vosso Reino"** Invocamos o Reino de Deus na vinda gloriosa de Cristo, mas também pedimos para a~Igreja um crescimento constante na unidade com Deus e~com os homens, graças ao seu amor, tornando presente o Reino na terra. **2818** Na Oração do Senhor trata-se, antes de mais nada, da vinda final do Reino de Deus no retorno de Cristo. Mas este desejo não afasta a~Igreja da sua missão neste mundo; antes, compromete-a ainda mais nela. Desde o Pentecostes, a~vinda do Reino é obra do Espírito do Senhor, "que continua a~sua obra no mundo e~leva a~cumprimento toda a~santificação". **3. "seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu"** Realização do plano salvífico de Deus na terra; sujeito agente: Deus. Ação humana em conformidade com a~vontade e~o ensino de Deus, aproximando o Reino; sujeito agente: o homem. **2822** A~vontade do nosso Pai é que "todos os homens sejam salvos e~cheguem ao conhecimento da verdade" (1 Tm 2,4). "Ele usa de paciência... porque não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem à~conversão" (2 Pe 3,9). O~seu mandamento, que resume todos os outros e~exprime toda a~sua vontade, é que "nos amemos uns aos outros como Ele nos amou" (Jo 13,34). **4. "o pão nosso de cada dia nos dai hoje"** *Artos epiousios* gr. -- pão necessário para existir, quotidiano; "de cada dia" = "pertencente ao Dia do Senhor", pão do banquete celeste; literalmente *epiousios* -- supra-substancial. O~pão, na tradição bíblica, evoca todo o dom salvífico de Deus: o pão da Palavra, o pão eucarístico, o pão quotidiano. **2837** O~Pai celeste convida-nos, como filhos do céu, a~pedir o Pão do céu. **5. "e perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido"** Nesta petição aproximamo-nos de Deus como o filho pródigo, confessamos a~nossa condição pecadora e~mostramos disponibilidade para perdoar -- para abrir o coração endurecido à~sua misericórdia. **2862** A~quinta petição é uma súplica pela misericórdia de Deus sobre os nossos pecados. Ela não pode penetrar nos nossos corações se não soubemos perdoar aos nossos inimigos, à~semelhança e~com a~ajuda de Cristo. **6. "e não nos deixeis cair em tentação"** A~petição exprime confiança no poder libertador do Pai. "Fazei que não cedamos à~tentação" -- rezamos para sermos guardados nos tempos da tentação, e~não para sermos poupados a~qualquer tentação. **2848** "Não cair em tentação" supõe uma *decisão do coração*: "Fiel é Deus, que não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças; mas, com a~tentação, dará também o meio de sair dela, para que a~possais suportar" (1 Cor 10,13). **7. "mas livrai-nos do Mal"** **2851** O~mal de que fala esta petição não é uma abstração, mas designa uma pessoa: Satanás, o~Maligno, o anjo que se opôs a~Deus. **2854** Ao pedir que sejamos libertados do Maligno, rezamos também pela libertação de todos os males, passados, presentes e~futuros, dos quais ele é autor ou instigador. Nesta última petição, a~Igreja leva diante de Deus Pai a~miséria de todo o mundo. Ao pedir a~libertação do mal que oprime a~humanidade, suplica o precioso dom da paz e~a~graça de esperar perseverantemente o retorno de Cristo.