Encontro 2. - Desconstrução *************************** .. tags:: conteudo|desconstrucao|Desconstrução, conteudo|fe|Fé, conteudo|nomes-de-deus|Nomes de Deus, conteudo|tradicoes-judaicas|Tradições judaicas, metodo|trabalho-com-texto|Trabalho com texto, metodo|trabalho-em-grupos|Trabalho em grupos, metodo|aderecos|Adereços, tipo|partilha|De partilha Introdução para o animador e objetivos ====================================== Este encontro tem como objetivo despertar e~reativar a~fé através de um convite a~deixar, de forma controlada, aquilo que é conhecido e~familiar. Isso não nos acontece com facilidade -- mesmo quando sabemos que vale a~pena. No entanto, não é possível desenhar este encontro de tal forma que tenhamos a~certeza de alcançar esse objetivo. O~fato de alguém decidir ou não dar esse passo não depende de nós. Concentra-te naquilo que realmente está ao teu alcance. Vem para este encontro com uma convicção pessoal e~com disponibilidade para a~desconstrução e~reconstrução da tua própria fé. O~teu exemplo, a~tua atitude e~a~tua liberdade interior podem tornar-se para alguém um convite para "juntar-se" a~este caminho. Durante o encontro trabalhamos em duas dinâmicas. A~primeira consiste em trazer caixas fechadas. Ao longo do encontro, vais abri-las uma a~uma e~tirar delas objetos -- **sem qualquer comentário**. Em cada um deles estará colado um papel cujo conteúdo não lemos até ao próprio fim. Queremos, deste modo, despertar nos participantes a~experiência da curiosidade pelo que existe "para lá do horizonte", recordar-lhes que, por natureza, somos exploradores, e~que os rastos dos pés conduzem mais longe do que o próprio pensamento. Esta dinâmica torna-se o ícone de todo o encontro -- um segundo trilho de ação, paralelo ao primeiro, que trabalha ao nível das emoções e~da intuição. A~segunda dinâmica é um exercício pessoal de trabalho com uma linha do tempo (descrito em pormenor no esquema). Cada participante olha individualmente para a~sua história de fé, descobrindo o processo de alargamento gradual da sua compreensão de Deus. Alef ==== Os retiros têm os seus momentos culminantes. No nosso retiro já passámos pelo primeiro deles -- a~adoração da noite. - O~que levas desta experiência para ti? - Como te encontraste numa "etapização" tão clara da vigília, em que, no entanto, foste tu mesmo/a quem decidiu avançar? (Alef) Não deveria um ponto culminante ser "construído", "preparado" e~"conduzido" por uma entrada progressiva no tema ao longo de várias horas? Não necessariamente. Não precisámos de uma longa preparação. Às vezes é até mais fácil entrar em profundidade *ad hoc* do que construir expectativas. *O animador abre a~"caixa 1" e~tira de dentro um conjunto de xícaras e~chá. Nelas há uma inscrição tapada: "Encontro Alef".* - Como preferes viver as "coisas importantes" -- com preparação ou "simplesmente"? Bet === Além da oração, tivemos também a~conferência. - O~que naquilo que a~Kasia disse me está mais próximo? Porquê? *O animador pega numa folha e~desenha a~letra Bet.* A~letra Bet é uma tenda. Essa tenda está aberta. É bom ter em si disponibilidade para encontrar aquilo que nos vem ao encontro. Nela vemos também uma abertura "ativa" -- uma ação em favor de haver mais "dentro" / "do nosso lado". Em imagem, poderíamos representá-la não tanto como uma abertura maior da porta do lado esquerdo da letra, para que alguém venha até nós, mas como o prolongamento do traço superior e~do traço inferior do bet, amplamente, para alargar a~escala da sua influência. Leiamos: «Canta de alegria, ó estéril, tu que não deste à luz! Exulta de alegria e~grita de júbilo, tu que não conheceste as dores de parto! Porque mais numerosos são os filhos da abandonada do que os filhos da mulher casada, diz o Senhor. Alarga o espaço da tua tenda, estende as lonas da tua morada, não te acanhes, alonga as tuas cordas, firma bem as tuas estacas! Porque te expandirás para a~direita e~para a~esquerda, e~a~tua descendência possuirá as nações e~habitará cidades desertas.» -- Is 54,1-3 *O animador abre a~"caixa 2" e~tira de dentro um conjunto para montar uma tenda. Neles há uma inscrição tapada: "Viajar".* - O~que é o teu espaço? - Que alargamento do teu espaço aconteceu recentemente? Deus quer que "alonguemos as nossas cordas" e~que "estendamos as lonas da nossa morada". Isso é importante para Ele. É um fio condutor em cada história de fé. Deus conduz-nos gradualmente da pequena escala para a~grande escala, mas volta sempre a~esta disponibilidade para o "alargamento do coração": Corro pelo caminho dos teus mandamentos, porque alargas o meu coração. -- Sl 119,32 Por exemplo: #. **[escala da família]** Abrão deve sair de Ur dos caldeus e~alargar o seu mundo. #. **[escala da tribo]** O~Egito, embora no início tenha sido muito bom para os judeus, com o tempo torna-se demasiado limitador e, por isso, com Moisés eles partem para a~Terra Prometida. #. **[escala da nação]** Muitas cidades e~povoados dão alegria e~paz, mas Deus desperta o desejo de identificação com um povo. Por isso David e~Salomão constroem o templo. #. **[escala da humanidade]** O~Povo Eleito é uma bênção para o mundo, mas Deus quer que pessoas de toda a~língua se unam. Por isso Jesus funda a~Igreja. O~alargamento do coração acontece em duas escalas -- macro e~micro. A~escala macro é a~história da salvação. Deus ensina-nos gradualmente uma "capacidade de coração" cada vez maior. A~escala micro é aquilo que acontece no coração de cada crente. - Qual destes exemplos de "alargamento do coração" na escala macro me está mais próximo? .. note:: Há muito mais exemplos: o Concílio Vaticano II alarga o acesso à liturgia através das línguas nacionais, há algum tempo ordenamos diáconos permanentes, o que alarga o conjunto de experiências das pessoas que pregam homilias, o movimento ecuménico alarga a~nossa forma de pensar a~Igreja, etc. O~animador deve escolher os exemplos que lhe são mais próximos. - O~que aprendes com essa pessoa que alargou o seu coração? Leiamos: Coube-me por sorte uma porção deliciosa, e~é esplêndida a~herança que me tocou. -- Sl 16,6 O~espaço é um dom do próprio Deus. Precisamos de "ter espaço". E~não o recebemos apenas de Deus. - Quem me dá espaço? Queremos que os outros nos deem espaço. Não há uma divisão entre aqueles que dão espaço e~aqueles que o recebem. Isso significa que esses "outros" somos nós. *O animador abre a~"caixa 3" e~tira de dentro um conjunto de várias sementes, desde as menores até às maiores. Nelas há uma inscrição tapada: "Escala".* A nossa expansão ================ Leiamos esta tese: *Se "Alef" responde à pergunta "porquê?", então "Bet" diz-nos "como?"* - Como entendeis isto? Alef fala de ser ligação entre o mundo visível e~o~invisível (conferência + oração de sexta-feira). Essa é a~nossa missão aqui na terra. Bet diz que podemos ser mediadores quando tivermos em nós curiosidade pelo que está para lá do horizonte, quando não nos apegarmos demasiado a~coisa alguma. Temos de "saber estar entre". - O~que há de difícil em alargar o pensamento? - O~que há de difícil em alargar o coração? - Em que é que uma coisa difere da outra para ti? Voltemos ao exemplo de Abrão. Leiamos: O~Senhor disse a~Abrão: «Sai da tua terra, da tua parentela e~da casa de teu pai, para a~terra que Eu te mostrarei. Farei de ti uma grande nação, abençoar-te-ei e~engrandecerei o teu nome: tornar-te-ás uma bênção. Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem, e~em ti serão abençoados todos os povos da terra.» Ora Abrão era muito rico em gado, prata e~ouro. -- Gn 12,1-3; 13,2 *O animador abre a~"caixa 4" e~dentro dela há turfa. Nela há uma inscrição tapada: "Esperança".* Não há ali uma única palavra sobre conflito, obrigação ou fuga. Ele não era perseguido, era rico. Ur era uma das cidades mais importantes da Mesopotâmia -- uma das regiões mais desenvolvidas do mundo. Pode-se supor que Abrão estava realmente muito bem. Alguém poderia perguntar: "para quê, em tais condições, ir para o desconhecido?". Esta é uma das características mais fortes de Abrão -- a~prontidão para mudar ao chamamento de Deus mesmo quando tudo está bem. - O~que é o meu Ur dos caldeus -- a~casa que eu gosto, conheço e~não quero mudar? Desconstrução e reconstrução ============================ Isto exige grande coragem. Abrão tem disponibilidade para "estragar" algo que funciona bem. É um consentimento para a~"desconstrução", para que depois haja "reconstrução". Só alguém de grande esperança consegue fazer isso, acreditando que aquilo que virá no futuro será ainda melhor do que o que existe agora. *O animador abre a~"caixa 5" e~tira de dentro uma folha com um texto. Nela há uma inscrição tapada: "reconstrução".* Tentemos enfrentar isto. Na conferência, a~Kasia falou-nos de certas formas de nomear Deus que poderíamos chamar "comunitárias". Vejamos agora três designações adicionais, referidas mais à relação individual. Leiamos: [O Anjo] disse-lhe: «Não levantes a~mão contra o menino e~não lhe faças mal algum. Agora sei que temes a~Deus, pois não Me recusaste nem mesmo o teu filho único.» Abraão, erguendo os olhos, viu por detrás de si um carneiro preso pelos chifres num silvado. Foi buscá-lo, tomou-o e~ofereceu-o em holocausto em lugar do seu filho. Abraão deu àquele lugar o nome de "O Senhor vê". Por isso ainda hoje se diz: «No monte o Senhor se deixa ver». -- Gn 22,12-14 **Jireh -- o Senhor provê.** "O Senhor vê" ou "o Senhor provê". Esta segunda tradução tem um sentido profundo no contexto do relato. Leiamos: Moisés mandou os israelitas partir do Mar Vermelho, e~eles seguiram em direção ao deserto de Chur. Caminharam três dias pelo deserto sem encontrar água. Chegaram depois a~Mara, mas não podiam beber a~água de Mara, porque era amarga; por isso se lhe deu o nome de Mara. O~povo murmurou contra Moisés, dizendo: «Que havemos de beber?» Moisés clamou ao Senhor, e~o Senhor mostrou-lhe um pedaço de madeira. Ele lançou-o na água, e~a~água tornou-se doce. Ali o Senhor lhe deu leis e~preceitos, e~ali o pôs à prova. E~disse: «Se ouvires atentamente a~voz do Senhor, teu Deus, se fizeres o~que é reto aos seus olhos, se deres ouvidos aos seus mandamentos e~guardares todas as suas leis, não te infligirei nenhuma das doenças que mandei sobre o Egito, porque Eu sou o Senhor, que te cura.» Depois chegaram a~Elim, onde havia doze fontes e~setenta palmeiras. Ali acamparam junto das águas. -- Ex 15,22-27 **Rapha -- o Senhor cura.** Caminham três dias sem água, depois encontram água envenenada. Deus torna-a potável e, em seguida, dá-lhes a~experiência de doze fontes. Leiamos: «Pede para ti um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do Xeol, quer lá nas alturas.» Mas Acaz respondeu: «Não pedirei, nem porei o Senhor à prova.» Então [Isaías] disse: «Escutai, pois, casa de David: Não vos basta cansar os homens, para cansardes também o meu Deus? Por isso o próprio Senhor vos dará um sinal: Eis que a~virgem conceberá e~dará à luz um filho e~dar-lhe-á o nome de Emmanuel.» -- Is 7,11-14 **Emmanuel -- Deus connosco.** O~povo, na sua aflição, precisa de um sinal para ter a~certeza da presença de Deus e~recebe o anúncio de que Deus estará no meio deles. *O animador abre a~"caixa 6" e~tira de dentro uma ligadura. Nela há uma inscrição tapada: "Aquele que provê".* Assim, hoje vimos 7 designações de Deus: Elohim (Deus), YHWH (Eu Sou), Adonai (Senhor), El Shaddai (Todo-Poderoso), Jireh (Aquele que provê), Rapha (Curador), Emmanuel (Deus connosco). - Quantas designações diferentes de Deus usas, na prática, na oração? - O~que traz o uso de muitas? Façamos agora um exercício. Abram o caderno (na página 42). Acrescentemos uma escala ao eixo, marcando 0 anos à esquerda e~a~idade atual à direita. Pensemos agora em quando conhecemos este ou aquele "aspecto de Deus". "Conhecemos" em sentido bíblico! Leiamos: Misericórdia quero, e~não sacrifício; conhecimento de Deus, mais do que holocaustos. -- Os 6,6 *O animador abre a~"caixa 7" e~tira de dentro uma fatia de bom pão. Nela há uma inscrição tapada: "Experiência".* No original hebraico, a~palavra "דַּעַת" (da'at), traduzida como "conhecimento", significa a~integração de saber, relação, experiência e~ação. É um conhecimento "vivido", e~não apenas lido num livro. Não precisamos de colocar todas as designações -- apenas aquelas que "conhecemos". *O animador dá tempo para a~realização do exercício.* Cada um de nós desenhou um caminho de alargamento da compreensão do Incompreensível. Se tivermos mais de um aspecto de Deus colocado no eixo, isso significa que a~nossa forma de pensar Deus, a~nossa experiência de Deus, é cada vez mais ampla! - O~que tiras para ti daquilo que vês diante de ti ao olhar para esse eixo? - Como reagiste no passado às mudanças na imagem de Deus? - O~que podemos fazer para não cimentar a~nossa espiritualidade, considerando-a "acabada"? Cuidado com o espaço ==================== *O animador arranca os papéis dos objetos que estão sobre a~mesa. Todos, menos três. Deixa um pouco de tempo para que o grupo reaja espontaneamente. Se alguém arrancar por si mesmo os três papéis que faltam, assim seja.* Não abdiquemos de nos preocupar com o espaço à nossa volta -- tanto com aquele que já nos foi confiado como com aquele que ainda nos será confiado. Não fiquemos sentados no nosso Ur dos caldeus. Deixemo-nos conduzir a~novas áreas que estão à nossa espera. O~espaço não são apenas metros quadrados. São relações. É a~forma de pensar. São os limites que nós mesmos estabelecemos. São as nossas convicções sobre quem está "dentro" e~quem está "fora". Cada oração que invoca o Espírito Santo traz em si um certo "risco". O~risco de que o Espírito venha -- e~comece a~alargar o nosso coração para além do que tínhamos planeado. Que comece a~questionar as nossas fronteiras. Que nos mostre pessoas que até agora evitávamos. Que ponha em causa aquilo que construímos durante anos. Imaginai que sois judeus piedosos no século I. Observais escrupulosamente a~Lei de Moisés. Sabeis o~que se pode comer e~o~que não. Sabeis com quem se pode estar e~com quem não. A~vossa identidade é clara. Os limites são claros. O~mundo é ordenado. E~então acontece isto... Oração ====== .. note:: O chamamento do centurião Cornélio -- é um trecho longo, mas propomos que seja lido como oração final. Leiamos: At 10,1 - 11,3 O~essencial está no final: Enquanto Pedro ainda falava, o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a~palavra. E~os fiéis de origem judaica, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados por o dom do Espírito Santo se ter derramado também sobre os pagãos. Pois ouviam-nos falar em línguas e~glorificar a~Deus. Então Pedro disse: «Poderá alguém recusar a~água do batismo a~estes que receberam o Espírito Santo tal como nós?» E~mandou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Depois pediram-lhe que ficasse com eles ainda alguns dias. Os apóstolos e~os irmãos que estavam na Judeia souberam que também os pagãos tinham acolhido a~palavra de Deus. Quando Pedro subiu a~Jerusalém, os de origem judaica censuravam-no, dizendo: «Entraste em casa de homens incircuncisos e~comeste com eles.» -- At 10,44 - 11,3 Pedro chega com dúvidas, começa uma longa explicação, prepara-se a~si mesmo e~aos ouvintes. Como se ainda não tivesse a~certeza do que deve ser feito. O~Espírito Santo não esperou que ele estivesse pronto. "Enquanto Pedro ainda falava, o Espírito Santo desceu sobre todos." Sobre os incircuncisos! Sobre os não batizados! A~descida do Espírito Santo precedeu o batismo. Depois São Pedro "compensa o atraso" e~batiza-os depressa. E, apesar disso... a~Igreja nascente acolhe-o com "repreensões". O~seu mundo mental desmoronava-se, desconstruía-se... e, na realidade, reconstruía-se. Ainda bem... *Depois de ler este trecho, o animador desenvolve-o de modo natural numa oração por um coração largo e~por disponibilidade para reconstruir no coração tudo aquilo que o Espírito Santo quiser.* Aplicação ========= Encontra alguém com quem possas dar as mãos e~dar, juntos, um passo em frente. Não é uma brincadeira. Em direção ao horizonte!